quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

"Decifrei!"

Fazenda Cheetah – Africa do Sul – 8 pm.

O aroma do churrasco chegava a dar água na boca quando a dupla feminina surge na festa ao som de animados batuques zulus. Antes de qualquer coisa, vão procurar Daniel entre a “multidão” de convidados que movimentava-se do lado externo da casa. Procuram, procuram e nada. Não o viam em parte alguma... Isso podia significar problema. E se Luke o tivesse encontrado antes delas?... Julie nota que um grupo de homens altos e robustos formavam um círculo próximo a fogueira e já se aproximava do local com Andy, quando Dan surge correndo na frente delas, com três espetinhos de carne com batata na mão:
-Puxa! Vocês demoraram! - comenta ofegante! - Vai ter uma dança ali – aponta para os homens em círculo e dá uma dentada num espetinho, mastigando depressa. - Com fome, gatinhas?

-Valeu! - diz Jú agarrando um espetinho dele e começando a comer. Andrea faz o mesmo, sentia tanta fome, não podia esperar mais. Desde que chegaram na fazenda, a única coisa que provaram foi o aperitivo da Tinga, que só serviu pra abrir ainda mais o apetite.
Daniel sorri. - Esfomeadas!... Venham, o show vai começar!
Ele já ia saindo, quando Andy segura em seu casaco novo e puxa, perguntando intrigada:
-Peraí! Do que é esse churrasquinho??? Tem um sabor diferente...
-De búfalo. Também tem carne de antílope e gafanhotos fritos com farofa, especialidade africana.
As duas param de comer na hora. Andy quase deixa o laptop cair debaixo do braço, parecia incomodada ao repetir:
-Gafanhotos??? Do tipo: insetos com farofa??
Dan dá de ombros e consente. Ele vê Julie abrir um sorriso de orelha a orelha:
-Obaaaa!!! Adoro Gafanhoto!!! - ela se apressa a buscar um pratinho.
Ajeitando seu casaco novo de microfibra just boys, que Andy fez o favor de espichar, Dan revela algo inusitado, mudando de assunto:
-Andie, Tinga me disse que do outro lado da ponte existe uma pequena pista de pouso... Ela e o marido tem um avião teco-teco.
Dan não precisou dizer mais nada. Andy havia deduzido suas intenções apenas estudando seu olhar arteiro:
-Acha que vão nos emprestar o teco-teco? Esquece! Já foi difícil nos deixarem ficar, Dan – ela fala num tom baixo e delicado. - Escuta, tenho que falar algo agora que estamos sozinhos.
-Quê?
-Tentei ligar pra... aquela pessoa, mas meu celular ficou sem sinal.
-Estamos longe de tudo, Andy, sem comunicação. Nem meu celular hi-fi funciona direito nesse lugar.
-Mas, Julie conseguiu ligar pra irmã dela...
-É? Que sorte! Devia ter pedido o celular dela emprestado – ele coloca o braço ao redor do ombro da amiga. - Você... contou pra Jú sobre aquela pessoa?
Andy se solta dos braços dele, lança um olhar ressabiado:
-E por que contaria? É um segredo que envolve o meu passado! Dan, se contar pra ela, juro que...
-Tá, nem pretendo!... Só que confio na Julie, e você também devia. Afinal, salvou nossas vidas e de quebra aquele avião inteiro.
Andy abre um sorriso torto. - Eu sei... Mas... Não achou estranho quando ela correu pra cabine do piloto antes do avião bater no urubu? Sem falar no lance da cobra... Ela falou que uma cobra podia me picar sem ter visto a cobra.
Ele ri forçado, fala entredentes:
-Não era um urubu! Batemos num disco voador!!!!!!
-Ok! Melhor deixar isso pra lá... – olha ao redor, procurando a amiga -Falando na Jú, pra onde ela foi?
Jú acena ao longe. Havia encontrado uma mesa comprida de bancos feitos de troncos de árvore, próxima a fogueira faiscante. Andy e Dan vão até ela e sentam ao seu lado, enquanto os homens de pé começavam a demonstração de uma dança de guerra, masculina, uma maneira de mostrar um pouco de sua cultura aos convidados. Todos se vestiam com roupas de guerreiros, lanças, escudos e plumas. Então, homens de idades variadas e pele bem escura, os zulus, agitavam os braços e dançavam num ritmo sem igual, cantando algo como um assobio e encantando os olhos de quem assistia.
É então, que Andy dá sua deixa, cortando a diversão dos amigos:

-Decifreii!! - grita, olhando para o laptop aberto sobre a mesa, depois baixa o tom de voz. - Traduzi "aquele" texto.
Jú e Dan viram pra ela, deixando o show de lado. Ainda bem que com tanto barulho em volta, ninguém ouviu Andy gritar. Eles olham para a tela e vêem que ela havia transformado tudo em uma língua que não conheciam e por isso, esperam ansiosos que fale o que descobriu. Num tom discreto, ela revela:
-The eXplorers é um projeto ultrasecreto do governo que diz que questões sobre ets devem ser investigadas. Ou melhor, é uma extensão do programa SETI, que busca por inteligência extraterrestre, ou forma de vida extraterrestre na Terra...
-E qual a diferença dos dois? SETI The eXplorers? - interrompe Dan.
-No SETI buscam por sinais ouvindo rádio, procuram por “ruídos galácticos” - Andy mal consegue tirar os olhos da tela, parecia surreal demais para acreditar.
-É como uma flauta – explica Jú e os dois viram pra ela confusos. - O sinal é como um tom de flauta com uma cachoeira ao fundo... – sorri da cara de bobo deles. - Que foi? Eu já tentei fazer contato uma vez, mas foi sem sucesso.
-Nunca ouvi nada assim antes... -admite Andy nervosa. - Sabia que os satélites captavam imagens do espaço, mas não que existia um rádio especial pra captar sons. E nem sei se acredito nisso... Pode ser só especulação, tem cada louco na internet!
-Um louco que teve o trabalho de misturar três línguas antigas? Pra quê? Ninguém teria o trabalho se não fosse verdade– intervém Julie.
-Continue – pede Dan virando pra Andy. - Se o SETI busca sinais do espaço... O que The eXplorers busca?
Batuques de canções tristes soam alto distraindo a atenção dela por um instante, Andy leva um segundo até responder, como se precisasse acreditar primeiro antes de revelar:
-PROVAS CONCRETAS.

-Provas??? - repete Jú super interessada. - Fala sério!!

-Equipes do The eXplorers investigam a existência de extraterrestres em vários cantos do... mundo.
-Do mundo? Cara, isso é maior do que a gente imaginava! - afirma Jú mordendo o lábio inferior chocada.
-Bem maior... - Andy mostra na tela uma mapa quase todo forrado de pontinhos verdes e poucos vermelhos. - Os pontos verdes são os locais com supostos avistamentos, ocorrências, queda de objetos desconhecidos, abduções, ou que estão sob investigação sigilosa.
-Como esse? - Dan aponta pra uma região perdida nas matas da Africa do Sul, as duas arregalam os olhos reconhecendo o lugar. - Luke e seu grupo seguiam aquele óvni pela mata!... Ele não era da equipe de resgate e sim, um caçador de aliens.
Soltando um suspiro, Andy fecha o laptop. Ela percebe que os amigos tinham razão o tempo todo, haviam dito a verdade e tudo o que viveram até agora era real. Isso a apavorava. Tinha que ter uma forma de provar que estavam enganados e tudo ficaria bem, e o mundo voltaria a ser “cor-de-rosa”, pelo menos era o que pensava nesse momento. Enquanto que, ao oposto dela, Dan sentia-se feliz:
-Essa é a prova que precisávamos!!!
-Pra quê? - indaga Andy. -”Eles” fazem parte do governo! Não podemos lutar contra o governo! Luke só estava fazendo o trabalho dele, nós é que estávamos no lugar e na hora errados. Não devíamos saber de nada... E podemos ser presos se insistir.
-Por isso estão atrás de nós! Estamos fritos... Como gafanhotos!! -diz Julie comendo um pouco do “prato especial” ainda quente.


Daniel faz uma careta, cutucando o braço de Andy:

-E AGORA? Andy, você é o cérebro do grupo, diz alguma coisa!!
-Algo não faz sentido nisso tudo... – afirma a jovem, afastando o laptop para longe de si e cruzando os braços sobre a mesa pensativa, olhando na direção dos zulus. - Pensem bem, eles nos deixaram escapar, se quisessem nos pegar já tinham feito... E a explosão do chalé... Foi mesmo Luke? Gente, ele não parecia saber que ia explodir, seguia na direção do chalé quando de repente BUM!
Daniel balança a cabeça em negação:
-Luke é o inimigo! Até que provem o contrário, ele sempre será o vilão!
Claro que Andy não tinha como provar que Luke não detonou o chalé, mas eles também nem tinha como provar o contrário. Nossa! Como isso era complicado! Recolhendo o celular e o laptop da mesa, Andy levanta e avisa:
-Vou guardar meus apetrechos. Quem sabe não encontro as respostas no caminho?
Andar e espairecer é uma das melhores táticas em situações extremas. Bastou ela sair, para Daniel, que estava sentado ao lado de Julie, chegasse mais perto dela e sussurrasse em seu ouvido:
-Sabe, há mais uma coisa sem sentido... O que houve na ponte, Jú?
Julie estremesse e se cala um instante. Dan fica sem saber se ela reagiu assim por causa da pergunta que fez, ou se foi por causa de seu “alto poder de sedução”. Afinal, Dan sabia que era um cara bonito, alto, e quando falava algo no ouvido de uma garota era normal se ela esquecesse o que ia dizer, ou melhor, caísse em seus braços... Nisso, um rapaz zulu com uma bandeja nas mãos vem tímido, servir um coquetel de frutas. Ele era alto, forte, de olhos cor de avelã e muito lindo, parecia um desses modelos de comercial de tv! Seus olhos fitavam Julie enquanto ele estendia a bandeja cheia de copos e taças na sua direção, dizendo umas palavras no seu dialeto africano, impossíveis de entender. Dan recusa o coquetel, mas pega o último copo de cerveja restante na bandeja. Julie tentada a experimentar coisas novas, aceita uma taça e bebe um gole da deliciosa bebida com sabor de frutas, antes de responder a Dan:


-Quer mesmo saber o que aconteceu na ponte? - ela dá uma piscadinha pro rapaz que abre um sorriso enorme, deixando a mesa deles logo em seguida. Julie vira o pescoço e olha direto nos olhos do Daniel. - Apenas impedi um acidente.
-Como? - pergunta doido pra saber a verdade.
Julie desvia os olhos pra frente. Ela vê o rapaz zulu esvaziar a bandeja dos coquetéis numa mesa próxima a deles, cheia de convidados sedentos. Ela repara quando o rapaz encosta numa árvore para descansar do trabalho e olha em sua direção. Jú abre um sorriso simpático e o rapaz retribui, sorrindo de volta. Estavam sendo perseguidos, numa selva entre predadores e presas, nem sabiam se acordariam vivos no dia seguinte; será que arranjar uma paquera agora seria tão errado??... Dan põe a mão no seu ombro e sacode. - Jú? Como podia saber da cobra?
-Hã?... Sei lá do que tá falando - disfarça, comendo mais um gafanhoto, como quem come batata-frita. - Devia provar um, é gostoso com cerveja.
-Bah! É preciso muita coragem pra mandar isso aí pra dentro - Dan aponta enojado para o prato dela. - Passo.
-A comida que é repulsiva para uns em uma parte do mundo, em outra é um banquete.
Numa tentativa de fugir da conversa, ela se levanta:
-Vou vazar, Dan. Tchau!
Em seguida, Julie olha mais uma vez para o zulu – um olhada rápida, de canto de olho - e deixa a mesa. Dan permanece sentado de boca aberta. Nunca uma garota havia saído de perto dele assim tão as pressas, tão sem explicação... O que ele nem desconfiava é que Julie queria esconder a verdade até quando fosse possível. Talvez por isso, tenha ido sentar sozinha numa das duas poltronas brancas de rattan pintado da varanda, que oportunamente encontrava-se vazia e a meia-luz. Recostou a cabeça, acomodou as pernas, e ficou imaginando como seria se aquele “gatinho do coquetel” a seguisse para conversar e até onde essa conversa iria... Mas, seus minutos de isolamento acabam, quando “ele” surge a sua frente, dizendo de repente:
-Pode prever as coisas, não é? Como os videntes fazem?

Julie reconhece a voz firme de Daniel, ergue o rosto encarando-o. Ele estava de pé a sua frente, de pernas abertas e mãos nos bolsos da calça, típica pose de machão mas um tanto desajeitado, seus olhos esperavam ansiosos por uma resposta rápida. Julie responde com um silêncio significativo.
-Jú, temos que falar sobre isso! - insistiu.
-Sobre o quê? Já escutou o que tá dizendo? É ridículo! Você sequer ligou pro lance do mapa astral e agora tá sugerindo que eu... - ela pára de falar, desvia os olhos para o horizonte.
-Sinto muito – diz Dan num tom baixo e sincero, fazendo com que Jú voltasse a olhar na sua direção. -Posso não tê-la ouvido antes sobre o mapa, mas estou aqui... Deixe-me compensá-la agora, princesa.
Ah! Como o Dan ficava irresistível falando assim! Ela não tinha como continuar guardando segredo... Decidindo confiar nele, levanta devagar e olhando em seus olhos verdes confessa:
-Eu sonhei – pausa. - Satisfeito?
Aproximando-se dela, Dan diz num tom sarcástico tipo conquistador:
-Estaria mais satisfeito se tivesse sonhado comigo.
Julie ri e o empurra de leve pra trás, num gesto brincalhão:
-Tá, aposto que sim! - ela também coloca as mãos no bolso do casaco antes de falar, a noite tava tão fria que se não fizesse isso, era capaz de “congelar” as mãos! - Eu... sou sensitiva. Desde criança posso prever situações antes que aconteçam ou, sentir quando algo tá errado.
-Como? - ele aponta para o céu com um gesto de cabeça sem notar que um disco voador acabava de passar por ali. - Os astros tem algo a ver com isso?

A jovem desvia os olhos para o céu para apreciar a noite; repleta de estrelas cintilantes, era uma linda noite de luar. Nem percebeu que Dan ao invés de olhar o céu a admirava, se perguntando como uma garota tão bonita ainda podia ter o poder de “ver o futuro”? Voltando-se para Dan, que vira o rosto depressa fingindo olhar as estrelas o tempo todo, Jú revela num tom suave:
-Nada a ver, são apenas sonhos... Alguns acontecem de verdade, outros preciso decifrar, e tem aqueles que são só “normais” - ela ri e Dan torna a olhar em seus olhos, então, algo a faz voltar a ficar séria. - Vi num sonho a Andy sendo picada por uma cobra e desmaiando logo depois, mas não lembrava o lugar... Quando sentei naquela ponte, soube que seria ali... Não sei como, apenas veio a cena na minha mente como um filme.
-Daí você a salvou – conclui Dan. - Então, consegue impedir que coisas ruins aconteçam?
-Às vezes. Premonições são como um jogo, tem dias que ganha, tem dias que perde... Os sonhos, no meu caso, são como se eu vivesse cada momento, parecem tão reais... Não sei se tá me acompanhando, é difícil explicar.
-Eu... Acho que entendo – ele encosta o braço no dela, olhando as estrelas por um instante, pensando no que haviam dito até agora, depois vira curioso:
-Rolou o mesmo com o avião? Sabia que íamos pousar na África?
Era complicado ter que reviver momentos em sua vida que preferia apagar com uma borracha no papel, mesmo em pensamento. Mas, guardar isso sozinha tornava-se insustentável, queria abrir seu segredo para Dan, dividir com ele, o que nunca desejou dividir com mais ninguém em toda a sua vida. Sentia-se pronta a contar tudo, então num tom baixo prosseguiu:
-Vi o boeing se chocar com o óvni e cair... sem sobreviventes. Acordei com o coração disparado e sentindo uma angústia enorme aqui dentro... - aponta para o coração.
-Você previu a tragédia! - ele parece assustar.- Só prevê tragédias?
Ela balança a cabeça negando e abre um sorriso, seus olhos pareciam mais puxados agora com seu sorriso aberto:
-Nem todas as premonições são catastróficas, Dan! Algumas são de coisas boas!
-Hum! Menos mal – ele ri exibindo as duas covinhas que Julie tanto adorava, ela corresponde. - Agora entendo porque você correu pra cabine do piloto, queria impedir que o avião batesse. Acertei?
-Não, isso era impossível! Eu vi no sonho que o óvni surgia por trás de uma nuvem, nem tinha como evitar... Mas, sabia o que tinha que fazer, correr pra cabine e aterrissar... Era a única capaz de salvar a todos, a única que sabia pilotar. Então, você cruzou meu caminho e sem querer ajudou, isso não tava previs...
-AJUDEI? - se surpreende consigo mesmo.
-É... Atrapalhou pra caraca no início, mas no final ajudou – risos. - Você acreditou em mim e me deu força.
-Sempre ajudo donzelas indefesas – ele dispara, Julie sorri. -Desde quando pilota?
-Desce criança. Aprendi por farra, meu pai era piloto... O melhor que já vi - Jú suspira deixando transparecer um brilho triste no olhar, lembrando do pai como se não o visse há um longo tempo, depois, muda de assunto com a velocidade do vento. - Hey! Quer ouvir algo estranho?
-Manda! - diz Dan interessado em ouvir o que quer que fosse, olhando em seus olhos vibrantes, admirando sua beleza, ouvindo ao fundo o cricrilar dos grilos e sentindo o sereno frio da noite tocar seus rostos com leveza, gostando de passar aquele tempo com ela, de ouvir seus sonhos, sua vida, seu dom extraordinário de prever o futuro, tudo era fabuloso!
-Sempre que tenho premonição é com pessoas próximas a mim e... Não conhecia ninguém naquele vôo – revela Julie intrigada. - Acabei mudando o destino de todos. Isso foi estranho.
Daniel desencosta o braço do dela, dá uma volta, ficando a frente de Julie, separados apenas por um palmo de distância, então, ele fala num tom de veludo:
-Salvou nossas vidas, Julie, é só o que importa.

Eles se aproximam um do outro e se abraçam apertado. A afinidade, respeito, e confiança que sentiam um pelo outro naquele momento era intensa e sincera. Talvez essa fosse uma das razões de estarem juntos nessa jornada alucinante na selva. Julie sentiu-se tão protegida nos braços de Dan, que desejou por um segundo que ele jamais a soltasse. Que abraço gostoso! Mas, como tudo que é bom dura pouco... Ambos sentem um “felino” passar por eles, esbarrando em suas coxas. Os dois olham pra baixo depressa, e o que vêem é um guepardo, de coleira vermelha no pescoço, pisando tão leve como quem anda sobre nuvens, indo deitar numa das poltronas vazias. O animal abre uma bocarra enorme - enquanto os dois arregalavam os olhos petrificados – não parecia ter a intenção de devorá-los, e sim estar com muuito sono. Antes que pudessem pensar em fugir, Karl surge na varanda, falando alto com seu jeito bronco de ser:
-Cheetah! É cedo pra dormir, minha cria! - ele volta-se para os dois que continuavam imóveis, sem respirar. - Cheetah é um guepardo órfão que adotei desde filhote, é como um membro da família – se aproxima devagar e desliza a mão pelas costas do animal, que ronrona, fechando os olhos. -Vá dormir em outro lugar, filhinha... Está atrapalhando o namoro do casal!
Ouvindo isso, Julie se solta dos braços de Dan e dá um passo pra trás, corrigindo:
-Não somos namorados, só estávamos... - ela fica sem saber o que dizer.
-Com medo do guepardo? -Karl ri alto. o animal abre os olhos ressabiado, salta no chão com graça, deixando a varanda. - Não se preocupem! Ela foi bem alimentada hoje, essa noite não caça nem mosquito!
-Sabe o que é engraçado?- bem humorado, Dan puxa assunto com o homem. - Quando chegamos aqui e conversamos, achei que se referia a uma filha "humana"...
-Filha? - Karl morre de rir. - Eu e Tinga nem temos filhos!
De repente, Jú começa a sentir um sono colossal. Pisca os olhos, pisca de novo, observa Dan falar com o dono da fazenda, tem a impressão de que os movimentos deles vão ficando lentos, então, sacode a cabeça tentando ficar desperta, mas era inevitável, sabia que se não fechasse os olhos por um segundo, a coisa só ia piorar... Discreta, senta na poltrona e encosta a cabeça sobre uma das mãos, ainda de olho nos dois homens a sua frente, que agora riam de coisas banais... Suas pálpebras vão ficando pesadas... É mais forte do que ela e a domina... Os olhos fecham por um segundo... JULIE VÊ ALGO!!... UM HOMEM VINDO DO ESCURO!!... QUE SENSAÇÃO REAL DE MEDO!! ESSE HOMEM ERA LUKE!!...


Jú pula na poltrona e abre os olhos!!! Dan vira pra ela na hora, seus olhos batem nos dela e percebem o pavor estampado em sua face.
-Jú, tá tudo bem? - ele pergunta mesmo vendo que não estava.
Karl que permanecia de costas pra ela nada percebe, exceto o tom apreensivo da voz do rapaz. Mas, ele sequer tem tempo de seguir o olhar de Dan para Julie, nesse instante, surge Tinga na varanda, em passos rápidos a procura do marido, ela trazia nas mãos mais um pratinho típico de regiões da África: aranhas caranguejeiras fritas. Dan e Julie se aproximam, mas nada falam, apenas ouvem:
-Chegou um grupo de ambientalistas... -a expressão de Tinga era de receio. - Disseram que só querem conversar com o dono da fazenda... Achei esquisito porque parecem mais agentes funerários, estão vestidos de preto até o pescoço! Ou são isso, ou Swat!
Dan volta-se pra Julie, que move os lábios balbuciando um nome:
-Luke.
Ele fica pálido!!... E agora?? Como fugir da fazenda as pressas sem serem vistos???

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