quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

"Sawu bona"


Fazenda Cheetah – 7 AM.

Na manhã seguinte, Andy acorda preguiçosa ouvindo o som dos elefantes ao longe e o gorjeio dos pássaros na beira da janela do quarto. Repara logo que Julie não está, mas como sua cama está desarrumada, deduz que ela dormiu ali e já se levantou. Então, escova dos dentes correndo, toma um banho morno com seus sais perfumados e sai do quarto de hóspedes saltitante, na esperança de encontrar “Luke”, ou melhor, seus amigos na fazenda. Ao chegar na cozinha, surpresa: a primeira pessoa que vê é Julie, exibindo uma lata de Jolt na mão, diante de uma mesa farta de café da manhã. O tom de voz da Andy soa como uma música estridente:

-Bom dia, bom dia, bom diaaa...

Erguendo os olhos pra Andy, Jú responde:
-Cala a boca, cala a boca, cala a bocaaaaa... Tô de ressaca, de ressacaaaa...
As duas dão risada, estavam sozinhas na cozinha, onde o sol penetrava pela porta aberta, refletindo um brilho radiante no piso de madeira descascado.
-Verdade? -pergunta Andy se aproximando e puxando uma cadeira pra sentar.
-Sim, um pouquinho, amiga.
-Não vi a hora que você foi deitar ontem... - comenta. - E também nem vi a hora que levantou.
-Talvez, porque eu tenha ido dormir de madrugada... Virei a noite dançando! E pulei da cama super cedo hoje.
-Dançou a noite toda?? - Andy se surpreende com o pique dela. E mais ainda quando olha para a mesa com atenção, tinham: ovos, bacon, linguiça, banana frita, tomate frito, frutas fresquinhas, uma garrafa aberta do vinho JC Le Roux, leite quente, café, bolachas, pão caseiro, tudo parecia tão apetitoso! Não era a toa que o prato de Julie estava quase vazio, devia ter provado de tudo...
Com um sorriso animado nos lábios, Jú revela, enquanto esticava o braço para pegar uma bolacha de mel:

-Conheci um gato na balada! O nome dele é Marco, irmão da Tinga!! Nós conversamos, dançamos, namoramos, trocamos telefone... Hum! Já viu um búfalo de perto?
-Jú, mas... e o Dan??? - diz um tanto desapontada. Mesmo sabendo da má fama de conquistador do amigo, no fundo torcia por um romance entre os dois.
-Nem vi o Dan na festa! Aliás, nenhum de vocês. Onde se meteram? - pergunta, passando geléia na bolacha.
-Depois que deixamos a sala de jogos, Dan foi pra festa e dançou com Tinga, mas tava preocupado com o acordo feito com Luke por isso, foi dormir cedo. Eu sei porque ele ligou pro meu celular e ficou 15 minutos contando. Disse que tentou te achar, mas tinha gente demais, daí desistiu.
-E você? O que fez?
-Fui pro quarto...
-Sozinha? - pergunta Julie lançando um olhar malicioso, enquanto bebia um gole de Jolt.
-Não... Com o bicho-papão! - responde Andy rindo. - Com quem eu iria?
Julie sorri pensando em pelo menos um nome: Luke Robbins. Mas, prefere não falar nada a respeito. Levanta, empurrando a cadeira para trás, que range alto no piso de madeira e sem querer derruba a lata vazia de Jolt sobre a mesa, que rola até Andy.
-Vou procurar Marco. Quero vê-lo antes de partir.
-Julie! - chama Andy pegando a latinha curiosa. - O que é... Jolt?
-É uma bebida energética, do tipo “Red Bull” - responde Julie super animada. - Você sabe o slogan “Red Bull te dá asas...”
-Com uma mesa tão caprichada como essa, tem que beber essas porcarias cheias de química logo no café da manhã???

-Andy, tô sem dormir por quase uma noite inteira, vou ter que pilotar um avião em alguns minutos, preciso no mínimo estar desperta e ainda bem que trouxe isso de casa, do contrário, estaria dormindo em pé agora... - diz Julie elétrica, sem parar nem pra respirar enquanto falava. - Quem acha que é, minha mãe?
-Não! Pensei em algo como “irmã mais velha” - diz Andy abrindo um sorriso sem jeito. - Tá, não quis ser chata...
Com um sorriso compreensivo no rosto, Julie diz antes de deixar a cozinha:
-Imagine. Aproveite seu “Breakfast of the Kings”!
Atravessando uma porta, Julie sai direto nos jardins da fazenda, enquanto Andy devorava o “Café da manhã dos Reis”(Breakfast of the Kings) como é chamado na África. Do lado de fora, o dia estava lindo, com um sol quente e pássaros por todos os lados. Tinga pendurava roupas em um varal, quando Julie vem perguntar por Marco... A mulher aponta para uma caverna adiante e continua a cuidar das roupas, parecia ocupada demais aquela manhã para dar atenção a jovem. Louca pra ver Marco, Jú segue até a caverna sem perceber que estava sendo observada a distância por “alguém” que caminhava pelas redondezas... Daniel. Como na cena de um filme de romance, ao pisar na entrada da caverna, um sorriso ilumina o rosto de Julie ao rever Marco... Ele estava parado feito uma estátua de cera, voando longe em seus pensamentos e sequer se deu conta de sua presença.
Dando um passo a frente para entrar na caverna, Julie percebe que estavam em uma singela capela e que ao fundo havia a imagem rústica de uma santa, com um delicado manto azul sobre os ombros... Só então, entende que Marco não estava pensando, e sim orando, em profundo silêncio... Apenas quando ouve o som de passos no chão de pedrinhas soltas, ele vira para trás. Seus olhares se encontram e ambos trocam um sorriso meigo, lembranças boas da noite anterior vem à tona. Num tom baixo e gentil, Marco diz em zulu:

Sawu bona”
Sem entender, Julie pergunta em inglês, num tom suave:
What this mean?” (O que isso significa?)
I see you” ( Eu vejo você)
Marco explica que “Sawu bona” é uma saudação zulu, que em algumas tribos da África quando um indivíduo passa por outro e não o cumprimenta é como se tivesse se recusando a vê-lo. Nós começamos a existir quando somos vistos, ou seja, sabemos que existimos pelo olhar do outro. Aproximando-se dele, Julie pergunta, encantada com sua cultura:
And What should I suppost to say back?” (E o que eu devo dizer de volta?)
Sikhona”
Sik...hona? Sikhoona... What is this?” (O que é isso?)
Marco ri pelo jeito torto da pronúncia dela e traduz:
I am here” (Eu estou aqui.)
Cool” (Legal)
Silêncio. Então, Marco lança um olhar tristonho, sabia que a hora de Julie partir se aproximava... Que naquele instante, naquela caverna úmida e abençoada, seria a despedida... Fortemente intuitiva, Julie pôde sentir a tristeza vindo do fundo do brilho daquele olhar... Ela, diferente dele, na maioria das vezes permitia que apenas a alegria ocupasse espaço em seu coração. Movida por um impulso e um sorriso nos lábios, Julie correu para os braços de Marco, abraçando-o bem apertado:
Oh! I will miss you, baby!” (Sentirei sua falta, bebê!)
Com um suspiro, Marco acariciou seu rosto com uma das mãos e beijou seus lábios com carinho, enquanto fazia uma promessa:
I will call you” (Eu vou ligar pra você)
Movendo a cabeça para trás, Julie encarou os olhos dele para checar se estava dizendo a verdade... É, parecia que sim... Deu um passo pra trás, ainda olhando para ele, depois outro passo e assim se foi, andando de costas, até dizer antes de deixar a caverna:
I will wait for you” (Vou esperar por você)
Take care” (Cuide-se)
E “take care” foi a última frase que ouviu antes de dar as costas, seguindo seu destino. Metros a frente, um velho aviãozinho teco-teco a esperava. Julie balançou a cabeça incomodada pensando que nunca encontrava o cara ideal e justo agora que trombou com um “príncipe encantado”, tinha que deixá-lo para trás igual laranja podre em final de feira. E quando pensava que o mundo jamais seria o mesmo sem Marco... Ouviu uma voz conhecida gritar seu nome:
-Julieeeeeeeeeeeee!!!!
Parando de repente, ela vira pro lado de onde vinha o som. Daniel corria em sua direção, mas no caminho, algo o faz parar... Um estranho animal passa entre eles... A ave hesita no meio do passeio, olhando desconfiada para os dois, como se um simples gesto fosse o suficiente para fazê-la bicar seus sapatos. Num tom baixo, Julie pergunta:
-De que planeta veio isso?

-Sei lá... – fala Daniel, recuperando o fôlego. - Parece um drag queen!
Julie racha de rir!! Sua risada era tão gostosa, que Dan ri junto com ela... Até que o animal se assusta e vai embora numa corrida frenética mais engraçada ainda.
-Só você pra me fazer rir agora, Dan!
Aproximando-se, Julie dá um abraço em Dan e juntos seguem em direção ao avião conversando extrovertidos:
-Como foi sua noitada ontem? - pergunta ela, como quem não quer nada.
-Sou um pobre coração solitário... E você, teve bons sonhos?
Ela abre um sorriso antes de continuar:
-Quer saber mesmo? - pergunta e ele consente depressa. - Puxa! Esqueci!

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