quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

"Decifrei!"

Fazenda Cheetah – Africa do Sul – 8 pm.

O aroma do churrasco chegava a dar água na boca quando a dupla feminina surge na festa ao som de animados batuques zulus. Antes de qualquer coisa, vão procurar Daniel entre a “multidão” de convidados que movimentava-se do lado externo da casa. Procuram, procuram e nada. Não o viam em parte alguma... Isso podia significar problema. E se Luke o tivesse encontrado antes delas?... Julie nota que um grupo de homens altos e robustos formavam um círculo próximo a fogueira e já se aproximava do local com Andy, quando Dan surge correndo na frente delas, com três espetinhos de carne com batata na mão:
-Puxa! Vocês demoraram! - comenta ofegante! - Vai ter uma dança ali – aponta para os homens em círculo e dá uma dentada num espetinho, mastigando depressa. - Com fome, gatinhas?

-Valeu! - diz Jú agarrando um espetinho dele e começando a comer. Andrea faz o mesmo, sentia tanta fome, não podia esperar mais. Desde que chegaram na fazenda, a única coisa que provaram foi o aperitivo da Tinga, que só serviu pra abrir ainda mais o apetite.
Daniel sorri. - Esfomeadas!... Venham, o show vai começar!
Ele já ia saindo, quando Andy segura em seu casaco novo e puxa, perguntando intrigada:
-Peraí! Do que é esse churrasquinho??? Tem um sabor diferente...
-De búfalo. Também tem carne de antílope e gafanhotos fritos com farofa, especialidade africana.
As duas param de comer na hora. Andy quase deixa o laptop cair debaixo do braço, parecia incomodada ao repetir:
-Gafanhotos??? Do tipo: insetos com farofa??
Dan dá de ombros e consente. Ele vê Julie abrir um sorriso de orelha a orelha:
-Obaaaa!!! Adoro Gafanhoto!!! - ela se apressa a buscar um pratinho.
Ajeitando seu casaco novo de microfibra just boys, que Andy fez o favor de espichar, Dan revela algo inusitado, mudando de assunto:
-Andie, Tinga me disse que do outro lado da ponte existe uma pequena pista de pouso... Ela e o marido tem um avião teco-teco.
Dan não precisou dizer mais nada. Andy havia deduzido suas intenções apenas estudando seu olhar arteiro:
-Acha que vão nos emprestar o teco-teco? Esquece! Já foi difícil nos deixarem ficar, Dan – ela fala num tom baixo e delicado. - Escuta, tenho que falar algo agora que estamos sozinhos.
-Quê?
-Tentei ligar pra... aquela pessoa, mas meu celular ficou sem sinal.
-Estamos longe de tudo, Andy, sem comunicação. Nem meu celular hi-fi funciona direito nesse lugar.
-Mas, Julie conseguiu ligar pra irmã dela...
-É? Que sorte! Devia ter pedido o celular dela emprestado – ele coloca o braço ao redor do ombro da amiga. - Você... contou pra Jú sobre aquela pessoa?
Andy se solta dos braços dele, lança um olhar ressabiado:
-E por que contaria? É um segredo que envolve o meu passado! Dan, se contar pra ela, juro que...
-Tá, nem pretendo!... Só que confio na Julie, e você também devia. Afinal, salvou nossas vidas e de quebra aquele avião inteiro.
Andy abre um sorriso torto. - Eu sei... Mas... Não achou estranho quando ela correu pra cabine do piloto antes do avião bater no urubu? Sem falar no lance da cobra... Ela falou que uma cobra podia me picar sem ter visto a cobra.
Ele ri forçado, fala entredentes:
-Não era um urubu! Batemos num disco voador!!!!!!
-Ok! Melhor deixar isso pra lá... – olha ao redor, procurando a amiga -Falando na Jú, pra onde ela foi?
Jú acena ao longe. Havia encontrado uma mesa comprida de bancos feitos de troncos de árvore, próxima a fogueira faiscante. Andy e Dan vão até ela e sentam ao seu lado, enquanto os homens de pé começavam a demonstração de uma dança de guerra, masculina, uma maneira de mostrar um pouco de sua cultura aos convidados. Todos se vestiam com roupas de guerreiros, lanças, escudos e plumas. Então, homens de idades variadas e pele bem escura, os zulus, agitavam os braços e dançavam num ritmo sem igual, cantando algo como um assobio e encantando os olhos de quem assistia.
É então, que Andy dá sua deixa, cortando a diversão dos amigos:

-Decifreii!! - grita, olhando para o laptop aberto sobre a mesa, depois baixa o tom de voz. - Traduzi "aquele" texto.
Jú e Dan viram pra ela, deixando o show de lado. Ainda bem que com tanto barulho em volta, ninguém ouviu Andy gritar. Eles olham para a tela e vêem que ela havia transformado tudo em uma língua que não conheciam e por isso, esperam ansiosos que fale o que descobriu. Num tom discreto, ela revela:
-The eXplorers é um projeto ultrasecreto do governo que diz que questões sobre ets devem ser investigadas. Ou melhor, é uma extensão do programa SETI, que busca por inteligência extraterrestre, ou forma de vida extraterrestre na Terra...
-E qual a diferença dos dois? SETI The eXplorers? - interrompe Dan.
-No SETI buscam por sinais ouvindo rádio, procuram por “ruídos galácticos” - Andy mal consegue tirar os olhos da tela, parecia surreal demais para acreditar.
-É como uma flauta – explica Jú e os dois viram pra ela confusos. - O sinal é como um tom de flauta com uma cachoeira ao fundo... – sorri da cara de bobo deles. - Que foi? Eu já tentei fazer contato uma vez, mas foi sem sucesso.
-Nunca ouvi nada assim antes... -admite Andy nervosa. - Sabia que os satélites captavam imagens do espaço, mas não que existia um rádio especial pra captar sons. E nem sei se acredito nisso... Pode ser só especulação, tem cada louco na internet!
-Um louco que teve o trabalho de misturar três línguas antigas? Pra quê? Ninguém teria o trabalho se não fosse verdade– intervém Julie.
-Continue – pede Dan virando pra Andy. - Se o SETI busca sinais do espaço... O que The eXplorers busca?
Batuques de canções tristes soam alto distraindo a atenção dela por um instante, Andy leva um segundo até responder, como se precisasse acreditar primeiro antes de revelar:
-PROVAS CONCRETAS.

-Provas??? - repete Jú super interessada. - Fala sério!!

-Equipes do The eXplorers investigam a existência de extraterrestres em vários cantos do... mundo.
-Do mundo? Cara, isso é maior do que a gente imaginava! - afirma Jú mordendo o lábio inferior chocada.
-Bem maior... - Andy mostra na tela uma mapa quase todo forrado de pontinhos verdes e poucos vermelhos. - Os pontos verdes são os locais com supostos avistamentos, ocorrências, queda de objetos desconhecidos, abduções, ou que estão sob investigação sigilosa.
-Como esse? - Dan aponta pra uma região perdida nas matas da Africa do Sul, as duas arregalam os olhos reconhecendo o lugar. - Luke e seu grupo seguiam aquele óvni pela mata!... Ele não era da equipe de resgate e sim, um caçador de aliens.
Soltando um suspiro, Andy fecha o laptop. Ela percebe que os amigos tinham razão o tempo todo, haviam dito a verdade e tudo o que viveram até agora era real. Isso a apavorava. Tinha que ter uma forma de provar que estavam enganados e tudo ficaria bem, e o mundo voltaria a ser “cor-de-rosa”, pelo menos era o que pensava nesse momento. Enquanto que, ao oposto dela, Dan sentia-se feliz:
-Essa é a prova que precisávamos!!!
-Pra quê? - indaga Andy. -”Eles” fazem parte do governo! Não podemos lutar contra o governo! Luke só estava fazendo o trabalho dele, nós é que estávamos no lugar e na hora errados. Não devíamos saber de nada... E podemos ser presos se insistir.
-Por isso estão atrás de nós! Estamos fritos... Como gafanhotos!! -diz Julie comendo um pouco do “prato especial” ainda quente.


Daniel faz uma careta, cutucando o braço de Andy:

-E AGORA? Andy, você é o cérebro do grupo, diz alguma coisa!!
-Algo não faz sentido nisso tudo... – afirma a jovem, afastando o laptop para longe de si e cruzando os braços sobre a mesa pensativa, olhando na direção dos zulus. - Pensem bem, eles nos deixaram escapar, se quisessem nos pegar já tinham feito... E a explosão do chalé... Foi mesmo Luke? Gente, ele não parecia saber que ia explodir, seguia na direção do chalé quando de repente BUM!
Daniel balança a cabeça em negação:
-Luke é o inimigo! Até que provem o contrário, ele sempre será o vilão!
Claro que Andy não tinha como provar que Luke não detonou o chalé, mas eles também nem tinha como provar o contrário. Nossa! Como isso era complicado! Recolhendo o celular e o laptop da mesa, Andy levanta e avisa:
-Vou guardar meus apetrechos. Quem sabe não encontro as respostas no caminho?
Andar e espairecer é uma das melhores táticas em situações extremas. Bastou ela sair, para Daniel, que estava sentado ao lado de Julie, chegasse mais perto dela e sussurrasse em seu ouvido:
-Sabe, há mais uma coisa sem sentido... O que houve na ponte, Jú?
Julie estremesse e se cala um instante. Dan fica sem saber se ela reagiu assim por causa da pergunta que fez, ou se foi por causa de seu “alto poder de sedução”. Afinal, Dan sabia que era um cara bonito, alto, e quando falava algo no ouvido de uma garota era normal se ela esquecesse o que ia dizer, ou melhor, caísse em seus braços... Nisso, um rapaz zulu com uma bandeja nas mãos vem tímido, servir um coquetel de frutas. Ele era alto, forte, de olhos cor de avelã e muito lindo, parecia um desses modelos de comercial de tv! Seus olhos fitavam Julie enquanto ele estendia a bandeja cheia de copos e taças na sua direção, dizendo umas palavras no seu dialeto africano, impossíveis de entender. Dan recusa o coquetel, mas pega o último copo de cerveja restante na bandeja. Julie tentada a experimentar coisas novas, aceita uma taça e bebe um gole da deliciosa bebida com sabor de frutas, antes de responder a Dan:


-Quer mesmo saber o que aconteceu na ponte? - ela dá uma piscadinha pro rapaz que abre um sorriso enorme, deixando a mesa deles logo em seguida. Julie vira o pescoço e olha direto nos olhos do Daniel. - Apenas impedi um acidente.
-Como? - pergunta doido pra saber a verdade.
Julie desvia os olhos pra frente. Ela vê o rapaz zulu esvaziar a bandeja dos coquetéis numa mesa próxima a deles, cheia de convidados sedentos. Ela repara quando o rapaz encosta numa árvore para descansar do trabalho e olha em sua direção. Jú abre um sorriso simpático e o rapaz retribui, sorrindo de volta. Estavam sendo perseguidos, numa selva entre predadores e presas, nem sabiam se acordariam vivos no dia seguinte; será que arranjar uma paquera agora seria tão errado??... Dan põe a mão no seu ombro e sacode. - Jú? Como podia saber da cobra?
-Hã?... Sei lá do que tá falando - disfarça, comendo mais um gafanhoto, como quem come batata-frita. - Devia provar um, é gostoso com cerveja.
-Bah! É preciso muita coragem pra mandar isso aí pra dentro - Dan aponta enojado para o prato dela. - Passo.
-A comida que é repulsiva para uns em uma parte do mundo, em outra é um banquete.
Numa tentativa de fugir da conversa, ela se levanta:
-Vou vazar, Dan. Tchau!
Em seguida, Julie olha mais uma vez para o zulu – um olhada rápida, de canto de olho - e deixa a mesa. Dan permanece sentado de boca aberta. Nunca uma garota havia saído de perto dele assim tão as pressas, tão sem explicação... O que ele nem desconfiava é que Julie queria esconder a verdade até quando fosse possível. Talvez por isso, tenha ido sentar sozinha numa das duas poltronas brancas de rattan pintado da varanda, que oportunamente encontrava-se vazia e a meia-luz. Recostou a cabeça, acomodou as pernas, e ficou imaginando como seria se aquele “gatinho do coquetel” a seguisse para conversar e até onde essa conversa iria... Mas, seus minutos de isolamento acabam, quando “ele” surge a sua frente, dizendo de repente:
-Pode prever as coisas, não é? Como os videntes fazem?

Julie reconhece a voz firme de Daniel, ergue o rosto encarando-o. Ele estava de pé a sua frente, de pernas abertas e mãos nos bolsos da calça, típica pose de machão mas um tanto desajeitado, seus olhos esperavam ansiosos por uma resposta rápida. Julie responde com um silêncio significativo.
-Jú, temos que falar sobre isso! - insistiu.
-Sobre o quê? Já escutou o que tá dizendo? É ridículo! Você sequer ligou pro lance do mapa astral e agora tá sugerindo que eu... - ela pára de falar, desvia os olhos para o horizonte.
-Sinto muito – diz Dan num tom baixo e sincero, fazendo com que Jú voltasse a olhar na sua direção. -Posso não tê-la ouvido antes sobre o mapa, mas estou aqui... Deixe-me compensá-la agora, princesa.
Ah! Como o Dan ficava irresistível falando assim! Ela não tinha como continuar guardando segredo... Decidindo confiar nele, levanta devagar e olhando em seus olhos verdes confessa:
-Eu sonhei – pausa. - Satisfeito?
Aproximando-se dela, Dan diz num tom sarcástico tipo conquistador:
-Estaria mais satisfeito se tivesse sonhado comigo.
Julie ri e o empurra de leve pra trás, num gesto brincalhão:
-Tá, aposto que sim! - ela também coloca as mãos no bolso do casaco antes de falar, a noite tava tão fria que se não fizesse isso, era capaz de “congelar” as mãos! - Eu... sou sensitiva. Desde criança posso prever situações antes que aconteçam ou, sentir quando algo tá errado.
-Como? - ele aponta para o céu com um gesto de cabeça sem notar que um disco voador acabava de passar por ali. - Os astros tem algo a ver com isso?

A jovem desvia os olhos para o céu para apreciar a noite; repleta de estrelas cintilantes, era uma linda noite de luar. Nem percebeu que Dan ao invés de olhar o céu a admirava, se perguntando como uma garota tão bonita ainda podia ter o poder de “ver o futuro”? Voltando-se para Dan, que vira o rosto depressa fingindo olhar as estrelas o tempo todo, Jú revela num tom suave:
-Nada a ver, são apenas sonhos... Alguns acontecem de verdade, outros preciso decifrar, e tem aqueles que são só “normais” - ela ri e Dan torna a olhar em seus olhos, então, algo a faz voltar a ficar séria. - Vi num sonho a Andy sendo picada por uma cobra e desmaiando logo depois, mas não lembrava o lugar... Quando sentei naquela ponte, soube que seria ali... Não sei como, apenas veio a cena na minha mente como um filme.
-Daí você a salvou – conclui Dan. - Então, consegue impedir que coisas ruins aconteçam?
-Às vezes. Premonições são como um jogo, tem dias que ganha, tem dias que perde... Os sonhos, no meu caso, são como se eu vivesse cada momento, parecem tão reais... Não sei se tá me acompanhando, é difícil explicar.
-Eu... Acho que entendo – ele encosta o braço no dela, olhando as estrelas por um instante, pensando no que haviam dito até agora, depois vira curioso:
-Rolou o mesmo com o avião? Sabia que íamos pousar na África?
Era complicado ter que reviver momentos em sua vida que preferia apagar com uma borracha no papel, mesmo em pensamento. Mas, guardar isso sozinha tornava-se insustentável, queria abrir seu segredo para Dan, dividir com ele, o que nunca desejou dividir com mais ninguém em toda a sua vida. Sentia-se pronta a contar tudo, então num tom baixo prosseguiu:
-Vi o boeing se chocar com o óvni e cair... sem sobreviventes. Acordei com o coração disparado e sentindo uma angústia enorme aqui dentro... - aponta para o coração.
-Você previu a tragédia! - ele parece assustar.- Só prevê tragédias?
Ela balança a cabeça negando e abre um sorriso, seus olhos pareciam mais puxados agora com seu sorriso aberto:
-Nem todas as premonições são catastróficas, Dan! Algumas são de coisas boas!
-Hum! Menos mal – ele ri exibindo as duas covinhas que Julie tanto adorava, ela corresponde. - Agora entendo porque você correu pra cabine do piloto, queria impedir que o avião batesse. Acertei?
-Não, isso era impossível! Eu vi no sonho que o óvni surgia por trás de uma nuvem, nem tinha como evitar... Mas, sabia o que tinha que fazer, correr pra cabine e aterrissar... Era a única capaz de salvar a todos, a única que sabia pilotar. Então, você cruzou meu caminho e sem querer ajudou, isso não tava previs...
-AJUDEI? - se surpreende consigo mesmo.
-É... Atrapalhou pra caraca no início, mas no final ajudou – risos. - Você acreditou em mim e me deu força.
-Sempre ajudo donzelas indefesas – ele dispara, Julie sorri. -Desde quando pilota?
-Desce criança. Aprendi por farra, meu pai era piloto... O melhor que já vi - Jú suspira deixando transparecer um brilho triste no olhar, lembrando do pai como se não o visse há um longo tempo, depois, muda de assunto com a velocidade do vento. - Hey! Quer ouvir algo estranho?
-Manda! - diz Dan interessado em ouvir o que quer que fosse, olhando em seus olhos vibrantes, admirando sua beleza, ouvindo ao fundo o cricrilar dos grilos e sentindo o sereno frio da noite tocar seus rostos com leveza, gostando de passar aquele tempo com ela, de ouvir seus sonhos, sua vida, seu dom extraordinário de prever o futuro, tudo era fabuloso!
-Sempre que tenho premonição é com pessoas próximas a mim e... Não conhecia ninguém naquele vôo – revela Julie intrigada. - Acabei mudando o destino de todos. Isso foi estranho.
Daniel desencosta o braço do dela, dá uma volta, ficando a frente de Julie, separados apenas por um palmo de distância, então, ele fala num tom de veludo:
-Salvou nossas vidas, Julie, é só o que importa.

Eles se aproximam um do outro e se abraçam apertado. A afinidade, respeito, e confiança que sentiam um pelo outro naquele momento era intensa e sincera. Talvez essa fosse uma das razões de estarem juntos nessa jornada alucinante na selva. Julie sentiu-se tão protegida nos braços de Dan, que desejou por um segundo que ele jamais a soltasse. Que abraço gostoso! Mas, como tudo que é bom dura pouco... Ambos sentem um “felino” passar por eles, esbarrando em suas coxas. Os dois olham pra baixo depressa, e o que vêem é um guepardo, de coleira vermelha no pescoço, pisando tão leve como quem anda sobre nuvens, indo deitar numa das poltronas vazias. O animal abre uma bocarra enorme - enquanto os dois arregalavam os olhos petrificados – não parecia ter a intenção de devorá-los, e sim estar com muuito sono. Antes que pudessem pensar em fugir, Karl surge na varanda, falando alto com seu jeito bronco de ser:
-Cheetah! É cedo pra dormir, minha cria! - ele volta-se para os dois que continuavam imóveis, sem respirar. - Cheetah é um guepardo órfão que adotei desde filhote, é como um membro da família – se aproxima devagar e desliza a mão pelas costas do animal, que ronrona, fechando os olhos. -Vá dormir em outro lugar, filhinha... Está atrapalhando o namoro do casal!
Ouvindo isso, Julie se solta dos braços de Dan e dá um passo pra trás, corrigindo:
-Não somos namorados, só estávamos... - ela fica sem saber o que dizer.
-Com medo do guepardo? -Karl ri alto. o animal abre os olhos ressabiado, salta no chão com graça, deixando a varanda. - Não se preocupem! Ela foi bem alimentada hoje, essa noite não caça nem mosquito!
-Sabe o que é engraçado?- bem humorado, Dan puxa assunto com o homem. - Quando chegamos aqui e conversamos, achei que se referia a uma filha "humana"...
-Filha? - Karl morre de rir. - Eu e Tinga nem temos filhos!
De repente, Jú começa a sentir um sono colossal. Pisca os olhos, pisca de novo, observa Dan falar com o dono da fazenda, tem a impressão de que os movimentos deles vão ficando lentos, então, sacode a cabeça tentando ficar desperta, mas era inevitável, sabia que se não fechasse os olhos por um segundo, a coisa só ia piorar... Discreta, senta na poltrona e encosta a cabeça sobre uma das mãos, ainda de olho nos dois homens a sua frente, que agora riam de coisas banais... Suas pálpebras vão ficando pesadas... É mais forte do que ela e a domina... Os olhos fecham por um segundo... JULIE VÊ ALGO!!... UM HOMEM VINDO DO ESCURO!!... QUE SENSAÇÃO REAL DE MEDO!! ESSE HOMEM ERA LUKE!!...


Jú pula na poltrona e abre os olhos!!! Dan vira pra ela na hora, seus olhos batem nos dela e percebem o pavor estampado em sua face.
-Jú, tá tudo bem? - ele pergunta mesmo vendo que não estava.
Karl que permanecia de costas pra ela nada percebe, exceto o tom apreensivo da voz do rapaz. Mas, ele sequer tem tempo de seguir o olhar de Dan para Julie, nesse instante, surge Tinga na varanda, em passos rápidos a procura do marido, ela trazia nas mãos mais um pratinho típico de regiões da África: aranhas caranguejeiras fritas. Dan e Julie se aproximam, mas nada falam, apenas ouvem:
-Chegou um grupo de ambientalistas... -a expressão de Tinga era de receio. - Disseram que só querem conversar com o dono da fazenda... Achei esquisito porque parecem mais agentes funerários, estão vestidos de preto até o pescoço! Ou são isso, ou Swat!
Dan volta-se pra Julie, que move os lábios balbuciando um nome:
-Luke.
Ele fica pálido!!... E agora?? Como fugir da fazenda as pressas sem serem vistos???

domingo, 13 de fevereiro de 2011

"Andy e Luke"

Andy havia entrado no quarto e deixado a porta aberta. Depois de largar o laptop e o celular sobre a cama, junto com a jaqueta jeans que acabava de tirar, ela encontrava-se de pé em frente ao espelho pensando se devia ou não fazer uma mudança radical nos cabelos. Não deu a menor bola quando o celular tocou da primeira vez, nem da segunda, só indo atender ao quinto toque:
-Helloo!

Do outro lado, a voz centrada de Daniel soa desesperada:
-ANDY!!!! ESCUTE COM ATENÇÃO!... “ELES” ESTÃO AQUI!! Não vimos Luke ainda, mas com certeza tá na fazenda! – Dan espera que ela diga algo, mas recebe de volta um silêncio tenso, então, supõe que a coitada perdeu a voz de susto. -Er... Eu e a Jú estamos bem, te esperamos na sala de jogos, fica debaixo da escada. CORRA! E TENTE NÃO SER VISTA!!! Karl nos dará cobertura.
Desligando o celular e guardando na bolsa, Andy sai do quarto as pressas sem vestir o casaco; dirige-se as escadas que conduziam a parte inferior da casa. Mas, ao pisar no segundo degrau, vê Luke subindo. Ele também a vê no mesmo instante. Ambos paralisam, olhando fixo um para o outro, tendo como som de fundo uma música romântica dos anos 80 vinda de fora. Luke estava lindo apesar do arranhão no rosto, marca do impacto da explosão no chalé. Usava um sobretudo preto, e seus olhos azuis brilhavam sob a luz fraca da escada, parecendo contente com aquele reencontro. Pelo menos, até Andy esticar o braço exigindo:
-FIQUE ONDE ESTÁ!

Sem sair do lugar, com um tom de voz tranquilo, ele garante:

-Não vou machucá-la.
Descrente, Andy sorri por um segundo, em seguida fala num tom áspero:
-É fácil dizer isso depois de explodir o chalé onde eu estava com meus amigos.
-Quê? - ele sobe um degrau indignado com a acusação dela. - Não fiz nada!
-Disse pra ficar aí! - alerta Andy num tom intimidor, sentindo o coração disparar dentro do peito, sem saber se por medo ou pela simples presença dele dividindo o mesmo espaço que ela.
Luke consente sem sair do lugar, e explica, embora achasse que ela jamais fosse acreditar nele:
-Os bombeiros suspeitam que o acidente foi causado por um babuíno, usando uma vela e uma cortina de algodão.
O que ele dizia até que fazia sentido, aquele macaco abusado era bem capaz de causar tamanho estrago. Mas, para uma pessoa inteligente como Andy, ainda restavam dúvidas inconclusivas:
-Tá escrito "idiota" na minha testa? O animal podia ter provocado um incêndio acidental, mas nunca uma explosão da tamanha proporção que foi. Ou, vai dizer que ele tinha uma “banana de dinamite” escondida no bolso da calça?
Luke ri notando que ela era uma mulher inteligente, além de ter senso de humor. Contudo, volta a ficar sério ao afirmar:
-Ainda estão estudando as causas, mas qualquer coisa pode ter provocado a explosão. Até mesmo pilhas vencidas... Tinha pilhas no chalé?
-Tinha... - hesita um instante. - Isso não prova nada!
Como desejava acreditar nele, do fundo de sua alma. Desejava acreditar desde o início, embora tudo e todos apontassem contra Luke, era inexplicável a sensação de segurança que ele passava. Ao invés de sentir medo quando estavam perto assim, sentia-se protegida. E se culpava por isso, lembrava das palavras duras de Dan “Luke é o inimigo”. Duvidava daquele homem a sua frente, que naquele momento, tentava convencê-la exatamente do contrário:

-Ao menos, admita que posso ter razão. Pilhas são inflamáveis.
Andy se mantém firme:
-Devo acreditar nisso? Que foi um simples "acidente"?
-Tem minha palavra de honra, Andy. Explosões chamam a atenção e na minha profissão, o que menos quero é chamar atenção dos outros – afirma.
Cruzando os braços, surpresa por ouvir seu nome sair daquela boca sexy, ela replica:
-Vejo que sabe meu nome; Luke. Só resta saber qual de nós teve mais sorte na pesquisa – ela o encara, tentando adivinhar o que ele ia dizer ou fazer em seguida, mas Luke sequer se move, atento a cada um de seus movimentos. -Se algo acontecer com os meus amigos ou...
-Asseguro que nada vai acontecer – diz persuasivo, fitando seus olhos.
-Então, por que você e seus homens nos perseguem? - descruza os braços, tentando entender os motivos. -O que querem de nós???
Luke responde na lata, segurando com uma das mãos no corrimão:
-Propor um acordo... Algo que pode interessar a vocês... Lamento pelo soco que dei no seu amigo, não é o modo como costumo agir – ele sobe mais um degrau, agora já estava quase no meio da escada. - Sei que vai achar estranho o que vou perguntar, mas... Conheço você de algum lugar?
-Talvez – agora é ela quem desce dois degraus para olhá-lo melhor. - Também tenho essa mesma sensação... De que nos conhecemos de algum lugar. A sensação é tão nítida que chega a assustar... De onde você é?
Nisso, a lâmpada da escada pisca, ameaçando queimar... Andy olha pra cima, torcendo pra que a luz não apagasse agora, e Luke aproveita para subir mais um degrau enquanto ela está distraída.
-Califórnia – responde, abrindo um meio sorriso. - Eu sou da Califórnia.
Andy baixa os olhos, encarando-o. Até que ele não parecia tão vilão, quanto Julie sugeriu. Era educado, atencioso, e não tirava os olhos dela, nem por um segundo. Andy sabia que agora seria impossível fugir sem que ele a alcançasse, claro, alguém com o porte físico do Luke era de se supôr que fosse veloz, forte, imbatível, e se a algemasse no corrimão, então não teria a menor chance!... Bom, talvez, se batesse nele de novo pra variar! E dessa vez, não queria bater, e sim conhecê-lo mais a fundo. Num tom neutro, Andy continua:
-Você fala bem meu idioma pra alguém que veio de fora. Vive aqui?
-É. Cresci no Brasil, um tempo no Rio e depois mudei pra São Paulo.
Andy consente. - Vai ver estudamos na mesma escola, ou moramos em bairros próximos...
Balançando a cabeça negando, Luke confessa:
-Chequei informações sobre sua vida pessoal e descobri que não batem com a minha. - pausa. - Alguma vez já viajou pra Califórnia com identidade de outra pessoa?
Andy ri com a pergunta dele. É óbvio que jamais faria algo desse tipo! Afinal, ele era o bad boy ali, não ela:
-Sem chance, Luke. Eu jamais usaria identidade falsa pra sair do país - ela lembra que havia roubado o carro dele e baixa os olhos envergonhada. -Imagino que deva ter encontrado seu jipe... Estávamos em apuros, nossa única saída foi “pegar emprestado” - tira um cartão do bolso e estica o braço devolvendo. - Achei isso no porta-luvas.
-Meu jipe? - sorri, enquanto apanhava o cartão e guardava no bolso. - É alugado pelas pessoas pra quem trabalho, são eles que pagam a conta, não se preocupe.
-Então... Acha que nos conhecemos de algum lugar?
Encostando na parede, ele tenta adivinhar:
-Fez curso fora da cidade?
-Vários... E você?
Pensa um instante... A luz da escada piscando...
-Alguns sem importância, como os de luta aikidô... Há um que não lembro de quase nada, acho que foi porque me afoguei – ri descontraído, deixando-a curiosa. - Mergulho.
-Onde?
-Em Abrolhos, anos atrás...
-É de lá que nos conhecemos! Tem de ser!! - afirma Andy empolgada. - Viajei pra Abrolhos anos atrás e foi o máximo! Fiz curso de mergulho também, aprendi tanta coisa!!... -ela pára de falar e pensa um pouco nisso. -Mas... Não lembro de ter cruzado com você lá... E no entanto, quando nos vimos naquela clareira foi como se fôssemos... próximos.
-Eu sei! Mais do que isso... Íntimos – ele sobe outro degrau, parando de frente pra ela.
Só então, Andy percebe o quanto havia deixado que se aproximasse... A luz do corredor que já piscava, apaga de vez, e eles ficam iluminados apenas pelo brilho fosco do luar que adentrava por uma janela aberta da escada.
-Não devia estar tão perto... - diz baixo, a voz entrecortada.
-Tem razão. Um empurrão seu e eu rolo escada abaixo- brinca Luke no mesmo tom.
Abrindo um sorriso suave, ela promete:
-Vou lembrar disso.
Sem temer o empurrão, ele se aproxima novamente, desta vez seus lábios quase tocam os dela, estavam tão perto que um podia sentir a respiração do outro. E o hálito de Luke tinha aroma de halls de menta e eucalipto, o preferido da Andy. Ele era mais alto que ela, mesmo estando um degrau abaixo. Andy não conseguia tirar os olhos dos dele, o que sentia era forte e incontrolável tal como um terremoto de alta intensidade na escala Richter. Nada fez para evitar quando os lábios de Luke vieram ao encontro dos seus... Se unindo num beijo que começou delicado e foi esquentando a cada segundo... Naquele momento, nada passou por sua mente, é como se tudo estivesse certo, por mais errado que pudesse parecer...
...Até que a luz da escada acende de repente e Andy cai na realidade, interrompendo o beijo e dizendo num sussurro:
-Isso não aconteceu!!!! - ela se afasta, desviando os olhos dos dele.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

"Sem saída"

O visual da sala de jogos era modesto e arrojado, com o piso forrado por um fino carpete vermelho. Havia uma mesa de sinuca no centro e ao lado da porta outra mesa, essa redonda, que sustentava um tabuleiro de xadrez feito de pedras de rio e um vaso de murano colorido. No fundo da sala, dois pufes em veludo rosados eram um convite ao descanso. Porém. Julie e Dan pareciam preocupados demais para pensar em sentar nos pufes, ou sequer encostar nas atrativas garrafas de vinho JC Le Roux legítimo Sul africano, expostas no bar de canto da sala... Sentada sobre a mesa de sinuca, girando uma bola de número 3, Julie olhava Daniel que andava de um lado pro outro a sua frente e diz sarcástica:
-Quer parar de andar pra lá e pra cá? Vai fazer um buraco no chão!
-”Ela” já devia estar aqui.
-Dan, tá tudo bem com a Andy – afirma Jú cheia de certeza.
-E como pode saber? - ele pára fitando-a desconfiado.
E a resposta vem “a galope”:
-Porque se tivesse acontecido algo, “eu veria”.
-Conta de novo como foi aquela premonição com Luke?
Vestindo um casaco preto básico sobre a roupa, Julie pula da mesa e aproxima-se dele para contar:

-Já disse... Ele vinha de um canto escuro e olhava pra mim, igual você tá fazendo agora. Só que mais de perto.

-Mais perto??? -ele parece incomodado com a idéia dessa aproximação. - Bom, essa sala tá bem iluminada, então, se continuarmos aqui, estamos salvos.
-Nunca se sabe... - Jú decide provocá-lo. - A qualquer momento um blackout pode acontecer e apagar tudo... Ou as luzes estourarem do nada - ela fala em tom de suspense, mas no final abre um sorriso debochado. -É, pelo visto vou ter de escolher se fico no escuro com Luke ou com você.
-Julie! Como consegue ser sarcástica uma hora dessas? Sabe o que acontece com as pessoas que investigam ETs? Morrem! Já li sobre isso!
-Ah! Falou o especialista! – ri, tirando sarro. - Meu, já escapamos do Luke tantas vezes, não será difícil escapar mais uma – ela volta até a mesa e começa a jogar sinuca. - O plano é esperar a Andy chegar e fugir.
-Fugir não é boa idéia. Tá escuro lá fora e você viu ele vindo do escuro, certo?

Julie caminha até a janela para espiar a festa, enquanto Dan olhava discreto para suas pernas sem que ela percebesse. Não podia negar que aquela garota tinha algo que chamava sua atenção.
-É, mas lá fora tá tão animado!... - diz, com o nariz grudado no vidro da janela, louca para estar dançando entre os convidados naquela linda noite de céu estrelado.
-Até agora não entendi como conseguiu comer aqueles gafanhotos!...
-Insetos são bons – vira para trás com um sorriso arteiro no rosto.
-Também vai provar as aranhas venenosas? - pergunta, tirando o casaco. Ficar trancado naquela sala de jogos com Julie estava dando um calor danado.
-Aranhas caranguejeiras fritas não são venenosas, bobo!
Como quem não quer nada, Dan se aproxima dela, até chegar bem perto e encarando seus olhos castanhos, pede:
-Acho melhor pegar seu número de celular, caso tenhamos que fugir e alguém aqui acabe se perdendo – pega o celular do bolso e abre a agenda eletrônica.
Despachada, Julie puxa o celular da mão dele e fuça tudo, enquanto andava até uma porta dupla de vidro que dava para outra sala com uma bonita piscina coberta de hidromassagem, ao vasculhar a agenda do celular dele, reclama:
-Caramba! Que lista enorme de números de mulher você tem no celular!
-Er... são de ex-namoradas... eu ia apagar... - ele se enrola todo, caminhando até a porta de vidro e ao ver a piscina do outro lado, empurra a porta tentando abrir, mas desiste ao ver que está trancada.
-É esse o tipo de cara que você é? - pergunta, olhando em seus olhos.
-Que tipo?
-Galinha!
Fazendo ar de inocente, Dan responde:
-Sou só um cara procurando a garota certa, mas enquanto não acho, saio com as erradas mesmo... - sorri sem se importar em ser chamado de galinha. - Quem sabe você é a certa?
-Sabe o que acho disso?
-O quê? - ele parece curioso em ouvir a opinião dela.
Julie fala num tom de quem está prestes a aprontar alguma:
-Você é um anjo que caiu do céu...
-Acha mesmo? - pergunta, convencido.
-Claro... Pena que caiu de cara! – ri, jogando o celular pro alto e se divertindo com o segundo fora que acabava de dar nele. Rápido, Dan apanha o celular no ar antes que caísse no chão.
Nisso, ambos ouvem o som de duas batidas na porta. TOC! TOC! Jú interrompe a risada na hora. Será que era Andy??? Dan aposta que sim, conhecia seu modo de bater. Por isso, foi até a porta seguido por Julie e segurou na maçaneta. Mas, antes que girasse, sentiu a mão dela segurar a sua, impedindo-o. Num sussurro, pediu:
-Espera!... Por que não pergunta quem é??
-Sei que é a Andy! – sussurrou de volta.
-Sinto que não deve abrir essa porta... - a voz de Julie soa em tom de advertência.
Dan tira a mão da maçaneta, ao mesmo tempo que Julie. Pensa um segundo, mas não havia o que pensar. Era Andy!!! Ele volta a tocar a maçaneta, vira para Julie, que morde os lábios aflita, como se pressentisse algo assombroso, mesmo acordada... Dan abre a porta e para susto dos dois, a luz do corredor estava apagada e havia apenas um imenso vazio lá fora...
Diante da porta, para alívio deles, aparece Andrea com uma expressão indefinível no rosto de porcelana. Abrindo um sorriso, Jú dá um passo a frente indo abraçar a amiga, mas percebe que ela não está só e recua no mesmo instante... De repente, Luke surge do escuro ao seu lado, parando de frente pra Julie. Um clima de pavor torna o ar pesado, irrespirável...
Andy tenta acalmar os ânimos, dizendo com sua voz doce e segura:
-Tudo bem. Luke só quer conversar, ele veio comigo.
O quê? Vieram juntos??? Essa era uma verdade tão terrível de acreditar tanto para Daniel quanto para Julie. Enquanto ele parecia chocado demais para falar algo a respeito, a reação de Julie é tempestiva com Andy, sem medir as palavras ela vai direto ao ponto:
-Você nos traiu!!!! Como pôde fazer isso? - grita.
-Ouçam! Luke me garantiu que o chefe dele tem uma proposta pra nos fazer e... Bom, só temos que ir até onde ele está, ouvir o que tem a dizer e estamos livres – responde Andy não demonstrando estar muito convencida disso.
-Simples assim? - duvida Julie. - Como se deixou convencer por esse cara?
-Estou cansada de fugir! Vocês não? - a arqueóloga retruca.
Parecia mentira, era o mesmo que o lobo mal ser levado até a casa dos três porquinhos por um dos porquinhos. Indignada com a situação, Julie explode:
-Somos um grupo, Andy! Devia ter nos consultado antes de trazê-lo aqui! Tomou uma decisão sozinha que afeta o grupo! - diz aos gritos.
Andy nada tem a declarar, talvez Julie estivesse certa, mas agora era tarde demais, a besteira já havia sido feita. Então, desvia o olhar para Daniel, seu bom e velho amigo de infância, esperando que ele ficasse do seu lado, que a amparasse como costumava fazer sempre. No entanto, a expressão no rosto dele indicava estar super desapontado... Contendo-se para não devolver o soco que Luke havia lhe dado na clareira, Dan se coloca do lado de Julie incondicionalmente:
-Jú tá certa! Há algo que não contei pra você porque achei estranho... Pesquisei sobre Luke Robbins na internet e sabe o que descobri? NADA! É como se nunca existisse! Como pode confiar em alguém que não existe, Andy?
Olhando para os dois, ela concorda e ressalta:
-Tem razão. Não posso obrigá-los a virem conosco... – dá um passo pra trás em direção ao escuro. - Eu vou sozinha.
Chocado, Dan desliza as mãos da testa ao queixo sem acreditar no que acabava de ouvir. Se a vida é cheia de surpresas, essa era uma delas. O nervoso que sentia naquele momento era tanto, que tinha vontade de socar a porta do guarda-roupa, se tivesse um guarda-roupa ali. Num tom ríspido, repreende:
-Ficou louca?? - Daniel vai até o corredor, segura no braço dela e a trás para perto de si e de Julie. - Não vou deixar que faça isso! - berra.
A discussão fervia a cada segundo, Luke olha sem jeito para um lado e outro do corredor pra ver se havia mais alguém assistindo aquele “barraco”, mas até o momento era o único na platéia. E apenas observa sem se manifestar, sabia que aquela briga era deles e preferia não se envolver até que tudo fosse resolvido.
Num tom mais elevado do que o de Dan, Andy desafia:
-O que vai fazer pra me impedir? Me amarrar?
Soltando o braço dela, ele respira, conta até dez e responde dando-se por vencido:
-Eu vou junto. Apesar de querer matá-la agora... sou seu amigo.
Ele sabia que quando Andy decidia algo, ninguém a fazia mudar de idéia. Um pouco mais calmo, vira pra Julie esperando uma resposta. Será que ela iria acompanhar os dois dessa vez?? Andy e Luke fazem o mesmo, olham para ela sem imaginar o que viria a seguir. Sem pensar muito, Jú anuncia num tom decisivo:
-Estamos juntos nessa, não é? - pausa. - Vou onde forem.
Então, voltando-se para Luke, Jú intimida, apontando o dedo indicador para ele:
-Mas, será do nosso jeito! Não vamos sair no meio da festa... Iremos amanhã!
-E mande aqueles homens que trabalham com você embora, não gosto deles – acrescenta Andy aproveitando a deixa. - Acha que pode fazer isso, Luke?
-Sem problemas – num tom de voz grave, Luke parece aceitar.
Dan encerra com chave de ouro:
-Partiremos cedo, num avião que a Julie irá pilotar.
Dessa vez, Luke balança a cabeça e abre um sorriso de pouco caso, prestes a dizer que não, quando Dan pressiona:
-É pegar ou largar, cara.
Sem escolha, Luke consente e deixa a sala de jogos, desaparecendo sorrateiro como um gatuno no corredor escuro... OS TRÊS FORMAM UM CÍRCULO, COMO SE ATRAVÉS DAQUELE CÍRCULO QUISESSEM PASSAR FORÇA UM PARA O OUTRO, OU ALGUMA ESPÉCIE DE ENERGIA CÓSMICA. Num tom arrependido, olhando para Daniel que agora acariciava seu rosto, Andy se desculpa:

-Foi mal, gente. Eu sei que vacilei, mas... Agora não tem volta.
-E o que faremos? - pergunta Dan irônico. - Nos matamos agora ou deixamos que Luke faça isso amanhã?
É então, que Julie responde de forma descontraída, com seu jeito próprio de ser:
-Vocês não sei, eu vou pra balada.
-Julie! Peraí, Jú! - chama Daniel em vão. Ela já tinha saído da sala de jogos em passos rápidos com suas botinhas...

"O Modelo"

                           Quando Julie deixou a sala de jogos, os tambores soavam furiosos tal como as batidas de seu coração. Sentia-se irada, acuada, estremecida sob impacto do último confronto que teve com Luke Robbins. Em seu conceito, aquele homem parecia uma dessas brilhantes esculturas de gelo, frio, inacessível, escorregadio, e sem sentimentos. Pelo menos, era assim que ela o via. Não confiava nele em hipótese alguma e em nada duvidaria se tivesse sendo seguida até a festa. Num impeto, virou pra trás de repente; procurando possíveis “espiões” entre os convidados para evitar surpresas... Mas, tinha tanta gente, como ter certeza?...


Andando mais rápida que o vento, quando voltou a olhar pra frente BOW!... Deu um trompaço com alguém que vinha do lado oposto!! Julie apenas ouviu o som metálico da bandeja caindo sobre o chão de terra batido depois que o corpo másculo daquele garçom bateu forte de encontro ao seu. Voltando um passo pra trás sem graça, disse:

-Desculpa! Eu tava distraída... - ela observa enquanto ele se abaixava para recolher a bandeja do chão. - Ainda bem que a bandeja tava vazia!
O rapaz se levanta, sacode a bandeja e resmunga qualquer coisa em zulu, num tom baixo e educado. Seus olhares se cruzam por acaso e dividem um silêncio estranho, profundo, um sem saber o que o outro acabava de dizer. Esperto, ele troca as palavras por um sorriso gentil e é logo correspondido por ela. Jú percebe que era aquele garçom que ela já vira antes, e que era mais bonito de perto! Tinha olhos claros e penetrantes. Seu sorriso inspirava confiança, além de ser bem mais alto do que ela que usava botas de salto. Mostrando-se esperta, Julie fala com ele num outro idioma, do contrário ficariam ali a noite toda sem se comunicar: dois bobos. Num tom amigável, ela começa:

Sorry... Do you speak english?” [Desculpa... Você fala inglês?]
O rapaz estica o braço largando a bandeja sobre uma mesa vaga e responde:
Yes, I do.” [Sim, eu falo.]
Abrindo outro sorriso, dessa vez de satisfação pelo simples fato de estar falando com aquela beldade, Jú continua:
I really sorry about this” [Sinto muito pelo que houve.]

De alguma forma, ele percebe que Julie está preocupada com algo, talvez por deixar transparecer tão nítido em seu olhar. Num tom compreensivo, pergunta, encostando em uma árvore:
Are you ok?” [Você está bem?]

Yep. But, I think that I need a drink” [Sim. Mas, acho que preciso de uma bebida.]
No more drinks tonight” [Chega de bebidas essa noite]
Julie sorri pelo modo como ele havia falado, se recusava a servir um simples coquetel para ela??? Tava brincando?? Antes que perguntasse, ele explicou:
Well, you don't need to drink right now... Let's take a walk first.” [Bem, você não precisa beber agora, vamos dar uma volta primeiro.]
But... And about your job?” [Mas... E o seu emprego?]
What job?”[Que emprego??]
You are the waiter, aren't you? [Você é o garçom, não é?]
Ele ri como quem ouve uma piada e esclarece:
No. I am just the helper. I am a friend of these family.” [Não, eu só estava ajudando. Sou amigo da família.]
Ok.”
Já que é assim, eles passam a caminhar juntos pela fazenda. No início, em meio aos muitos convidados, desviando conforme andavam, mas aos poucos as pessoas vão ficando para trás, os espaços menos movimentados. Num tom interessado, Jú pergunta:
So, what's your name, strange?” [Então, qual é seu nome, estranho?]
Marco”
Marco? Nice.” [Marco? Simpático!]
And yours?” [E o seu?]
Julie”
Seguindo lado a lado, sem pressa, Julie e Marco passam por uma grande fogueira, onde um macaco (símio) era assado na brasa com pimenta. Julie entendia que esse era mais um dos pratos exóticos da África, mas não teria coragem de comer churrasco de macaco, não mesmo. Por isso, olha de relance para o símio e volta-se para o belo rapaz ao seu lado, continuando:
Hey. What do you do, Marco?” [O que você faz, Marco?]
I am a top model.” [Eu sou modelo.]
Apesar dele ser um gato, Julie fica surpresa. Nunca esperava encontrar um modelo em uma fazenda no meio do nada, em uma região tão pacata da África, esperava no mínimo encontrar um "urtigão":
Top... model? Really? [Modelo? Sério?]
Actually... International Top Model” [Na verdade, modelo internacional.]
Nisso, Tinga passa por eles sorridente e joga um beijinho de longe para Marco. Julie repara e pergunta confusa:
Do you know her?” [Você a conhece?]

Consentindo com um sorriso largo nos lábios, ele revela:
Tinga is my sister” [Tinga é minha irmã.]
Cool, huh? She is very nice.” [Legal. Ela é muito simpática.]
Well, It's your turn now, Julie. What do you do?” [Bem, é sua vez agora, Julie. O que você faz?]
I can say that I work with astronomy and with the stars.” [Posso dizer que trabalho com astronomia e com as estrelas.]
Eles alcançam uma cerca branca da fazenda e param de vez, era o final da linha. Julie encosta as costas na cerca só então percebendo o quanto haviam se distanciado de tudo, ficando bem mais longe dos outros convidados do que desejava. E calculou que desde que estava com Marco, tinha esquecido por completo da rixa que teve com Luke. Ao vê-la olhando para a festa pensativa, Marco pergunta num tom gentil:

Do you wanna go back?” [Quer voltar?]
E por que faria isso? Passear com Marco tava sendo uma terapia, sem contar que gostava da companhia dele mais do que devia... Olhando para aquele lindo modelo desfilando a sua frente, Julie responde decidida a ficar:
No way.” [De jeito nenhum]
May I ask you something?” [Posso perguntar uma coisa?]
Go ahead!” [Vá em frente]
“...Where is your boyfriend?” [Onde está seu namorado?]
Julie sorri lembrando que quando viu Marco pela primeira vez, estava sentada na mesa com Daniel.
He is not my boyfriend! I am here with some friends, but we should leave tomorrow early... I am from Brazil” [Ele não é meu namorado! Eu estou aqui com alguns amigos, mas nós devemos partir amanhã cedo... Sou do Brasil]
Great!... And I'm living in Milão.” [Que ótimo! E eu moro em Milão.]
Ambos dão risada, era engraçado saber que pertenciam a lugares tão distantes e que de alguma forma estavam ali conversando, descobrindo coisas em comum. Através do inglês era como se pudessem estreitar distâncias, tornando-se mais próximos... No entanto, no momento que Julie está distraída, rindo, sente Marco segurar sua mão e a puxar de repente para trás dele, para protegê-la de algo feroz. Foi um gesto rápido e sem aviso!! Um tremendo susto!!!!... Não apenas para Julie, mas pelo visto ele também havia se assustado pra valer! Atrás da cerca branca onde Julie tinha encostado, um búfalo havia surgido do escuro e já se preparava para cravar seus chifres afiados nas costas dela. A verdade é que Marco salvou sua vida a tempo! O susto foi tão grande, que ambos ficaram imóveis até o búfalo bufar cansado e partir, sumindo na noite.

Assim que o chifrudo se vai, Marco dispara uma gracinha, agora mais calmo:

Aff! It was just a cow with a bad hair” [Aff! Era só uma vaca com um péssimo penteado”]
Ambos racham de rir de novo transformando o susto que levaram em pura descontração. Só então, Julie percebe que ainda está agarrada com Marco, com os braços ao redor do pescoço dele segurando apertado. Então, ela pára de rir, vai soltando as mãos devagar, anda até a frente dele e com os braços ainda sobre seus ombros largos, olhando fixo nos seus olhos, Julie aproxima sua boca da dele trocando um selinho inocente ao invés de dizer a famosa frase: “obrigada por salvar minha vida”, que todo mundo usa nessas horas. Só que não ficam apenas em “um” beijo, pois, quando Julie ia se afastando, Marco segura em sua cintura trazendo-a pra perto de novo e com um sorriso no rosto, rouba um segundo beijo. Esse mais longo do que o primeiro, cheio de intensidade, desejo, fazendo o coração de ambos acelerar em velocidade máxima. Julie sentiu-se fora de órbita nos braços daquele gato, e percebeu que ele também ficava cada vez mais “animado” com ela, assim sendo, foram para o terceiro beijo: esse quase pegando fogo de tão ardente... Julie sentiu as mãos dele deslizarem para dentro do seu casaco, contornando as curvas de seu corpo com malícia, despertando sensações indescritíveis... Ela retribuiu, percorrendo com as mãos o tórax bem definido dele, só indo parar no botão de sua calça...
Por conta desse amasso todo, a noite fria passou a esquentar a cada milésimo de segundo... Julie sentiu a boca quente de Marco deslizando suave por seu pescoço de forma que a arrepiava por inteiro. Num tom entrecortado, faltando o fôlego, Julie pediu:

Marcooo... Let's go back to the party...” [Marco... Vamos voltar pra festaa...]
Now?” [Agora?]
Ele se inclina para beijá-la outra vez, mas Julie recua a tempo. E puxando-o pela mão, com um sorriso animado no rosto, propõe:
Let's go dance!” [Vamos dançar!]
Para Marco, descendente de uma tribo Zulu, um convite para dançar era irrecusável. Ele adorava “requebrar”, a música em sua tribo representava felicidade. Então, segurando firme na mão dela, aceitou sem demora. Guiados pelas chamas das tochas e o brilho reluzente das estrelas, eles retornam a festa e dançam a noite toda! Também aproveitam para namorar, conversar, entre petiscos de gafanhotos e coquetéis exóticos...
...Era bem tarde, super tarde da madrugada, quando Jú entrou no quarto de hóspedes de fininho. Andy dormia em sono profundo, até para dormir ela era delicada, sequer roncava, apenas ressonava baixinho como um bebê. Julie trocou de roupa rapidinho e se enfiou debaixo do edredom macio de plumas de ganso da fazenda. Deitou a cabeça no travesseiro alto e macio, também de plumas, e em menos de um segundo estava dormindo... E o que viria no dia seguinte ela previu antecipado em seus sonhos... UMA CRIATURA NAS SOMBRAS...

-> Continua Final de TP: Clique em Postagens Mais Antigas ->