Esticando os braços ainda sonolenta, sentindo o calor do sol penetrar pela janela unido ao canto vibrante dos pássaros, Andy concorda com ele (e naquele momento concordaria com tudo que dissesse), torcia pra que nada a fizesse levantar daquela cadeira tão relaxante, que lembrava a velha cadeira de balanço da sua finada vó Maria:
-Ok, Dan, vamos falar do OVNI. O que descobriu?
Ele tira um chaveiro dourado do bolso, todo exibido, e começa a balançar as chaves no ar contando:
-Primeiro, quero dizer que comprei um carro com uma gatinha que conheci a noite passada...
-Com uma “galinha” que conheceu? - interrompe Jú sarcástica.
-Disse gatinha! - corrige.
-E o que mais? -Andy ansiosa, cutuca ele.
-Em segundo, revelei as fotos da clareira - conta.
-Fotos??? - Jú interrompe de novo. - Que fotos?? Como tirou fotos sem câmera?
Entregando as fotos a Andy, ele responde:
-Usei um binóculo com câmera digital embutida. Sou o máximo, não sou? Um detetive sem equipamentos de ponta não é nada.
-Baixa um pouco essa bola, vai – pede Julie revirando os olhos cômica e tirando o chaveiro da mão dele. - Aposto que esse carro nem sai do lugar!
Sem perder tempo, Andy levanta da cadeira e espalha as fotos sobre a cama, uma ao lado da outra. As imagens lembravam as antigas fotos estilo polaroid, haviam umas queimadas e tremidas, o colorido pássimo. Andy conclui que a noite e a fumaça foram fatores que minaram a nitidez das revelações. Após uma boa análise visual sobre o lençol de oncinha da cama dele, comenta:
-Tsc-tsc... Só vejo fumaça!... Ah! Sim, sim, sim! - pula comemorando. - O Luke saiu um gato nessa foto! Posso ficar com ela?
Dan franze as sobrancelhas invocado:
-Qual? Aquela que cortei metade da cara dele? - risos.
Nisso, Jú larga o pacote de bolachas e empurra os dois só pra pegar uma foto entre as demais... Algo tinha chamado sua atenção!
-OLHEM!!! Viram o solo perto do ovni? É seco e rachado. Estranho, porque onde estávamos o solo era normal...
-A falta de chuva deve ter ocasionado isso – sugere Andy sem se abalar.
-Mas, se fosse assim, toda a região estaria seca, não é? - Dan pega outra foto. - As copas das árvores perto do acidente aparecem queimadas!... E, não esqueçam o comportamento bizarro dos animais!
Ignorando as evidências que “gritavam” diante de seus olhos cor de mel, Andrea vai até a enorme janela de vidro olhar a paisagem. O chalé dava para um imenso lago, em meio a uma rica natureza selvagem, onde zebras, veadinhos, e muitas espécies de macacos, inclusive os vervet e babuínos, matavam a sede as margens de suas águas turvas. De costas para os amigos, ela ouve Julie concordando com Daniel:
-Caraca! É mesmo! Os morcegos que voaram atrás de nós pareciam bem agressivos e tinham um brilho diferente nos olhos...
-Brilho, é? Talvez estivessem apaixonados! – zomba Andy ainda de costas. - Sabem o que penso disso. É ridículo! Sei que esse lugar é maravilhoso, mas preferia estar mergulhando entre os corais da Austrália nesse exato momento, bem longe dessa confusão toda.
-Se tivesse ido pra Austrália, teria perdido o Big Five: leão, onça, elefante, búfalo e rinoceronte – arrisca Julie tentando animá-la. - Tá, ainda não vimos todos esses animais, mas quero ver. Meu, a África é tudo de bom!
-Jú, você é tudo de bom! – ele cochicha no ouvido da Julie, que sorri sem acreditar no elogio que acabava de ouvir.
Com um sorriso otimista nos lábios, Dan se aproxima de Andy, põe um braço ao redor de seu ombro e com o outro abre a larga janela de vidro. Estavam em uma dessas reservas onde os animais menos perigosos viviam soltos ao lado de uma infinidade de pássaros, cerca de 500 espécies voavam em liberdade em seu habitat natural. A sensação era de estarem na selva, só que dentro de um chalé. Num tom reconfortante, Daniel fala:
-Andy, nós tínhamos planos diferentes, eles mudaram. As coisas mudam... Estamos ferrados e sem rumo, mas ainda podemos nos divertir, temos um carro! Quer ver?
Passeando pelo quarto do Dan e xeretando tudo a sua volta, Julie esbarra sem querer no laptop que cai no chão fazendo barulho. TEC! Ao se abaixar para pegá-lo, sentindo-se uma desastrada completa, ela nota que a tela exibia uma página codificada:
-Que é isso?
Virando pra trás com o barulho, Dan vai conferir de perto e admite:
-Baixei um arquivo secreto chamado The eXplorers de um site estranho que falava sobre “Conspirações e Alienígenas”... Parece que o download foi concluído e com a queda, o arquivo abriu.
De repente a Austrália perdeu toda a importância. Movida por uma notável curiosidade feminina, Andy vem se juntar a dupla para espiar o visor. Usando o dedo ao invés do mouse, ela faz a página rolar para baixo com rapidez:
-Uau! É uma página inteira codificada!!!... E, pelo visto mistura três línguas distintas: grego, navarro e a terceira língua é a... Hã, ainda não tenho certeza.
-Pode decodificar? - Jú quase grita na expectativa.
-Claro! – afirma Andy como se fosse muito fácil pra ela. - Estudei várias línguas depois que abandonei o curso de arqueologia. A minha preferida é o latim!
Julie se põe a imaginar o que teria levado Andy a abandonar um curso, já que tal atitude não batia com o perfil dela. Para alguém que demonstrava ser o tipo de garota correta, do tipo intelectual, que quando se propõe a fazer algo vai até o fim, sem deixar nada pela metade, era difícil entender suas razões obscuras. Então, graças a sua distração idiota, Dan segura em sua cintura e a puxa pra junto dele, dando-lhe um amigável abraço de urso.
-Jú, quer ver o carro? Andy não sairá daqui até decifrar isso, conheço ela.
-Um segundo! - pede, soltando-se dos braços dele e tirando uma vela do bolso para acender próxima a cortina. - É uma vela aromática de limão, ajuda a tranquilizar – vira pra Andy. - Tem certeza de que não quer vir com a gente?
Balançando a cabeça em negação, Andy volta a sentar na memorável cadeira de balanço enquanto Jú e Dan seguiam até a porta.
-Peraí! Não tem uma regra nesse resort sobre deixar as janelas abertas? Acho que é proibido.
Dan ri antes de sair. - Que nada! Isso é só pra quem tem medo de mosquito. Deixe aberta, tá um calor danado!
-Ok.
Julie e Dan caminham devagar, lado a lado, conversando descontraídos por uma trilha que parecia um labirinto, onde o chão forrado de pedrinhas produzia um som agradável a cada passo que davam, envoltos pela vegetação típica africana. Tudo fluia na mais perfeita harmonia, borboletas coloridas bailavam ao seu redor e Julie podia jurar ter visto um bicho preguiça no galho de uma das árvores, o que a fez lembrar de Sid, a folgada e divertida preguiça do filme A Era do Gelo...
Em clima de bom humor, ambos chegam ao local onde está o carro, de frente para um belo jardim de fonte luminosa no centro. Aquela reserva de 12 mil km de ar puro e relax total, transmitia a sensação de estarem no paraíso... Sem dar a mínima para o carro velho estacionado a sua frente, Julie preferia admirar Daniel que agora havia encostado em um muro forrado de verde por todos os lados. Assim, de costas para o imenso jardim do resort, aquele homem era uma beldade, tal como um “meteorito de encontro a terra” lindo de se ver e inevitável! Seus olhos assumiam um tom esverdeado aquela manhã e olhavam direto na sua direção, de um jeito atento tornando quase impossível desviar daquele olhar! Julie “viajava” imaginando como seria se fossem namorados ao invés de amigos, e consentia com um gesto de cabeça toda vez que ele falava qualquer coisa boba sobre a reserva. O assunto não importava, apenas seu tom de voz baixo e aveludado. Até que ele parou de falar na reserva e quando Julie menos esperava, perguntou na lata:
-Ainda não me disse porque você viajava sozinha pra Austrália... Tava fugindo da polícia? - seu olhar agora parecia carente por respostas, apesar do tom brincalhão.
-Austrália? - repete sem prestar atenção.
-Sim, nosso avião ia destino Austrália, lembra?
Julie concorda, só então rindo pelo modo sarcástico com que ele havia se referido antes, depois desvia os olhos um instante, e enrola:
-Ah! Eu ia encontrar umas amigas... Numa festa rave aí...
Agora é Dan quem racha de rir:
-Você? Numa festa rave? Tá bom!... Diz pra mim, de onde você é? São Paulo?
Ela volta a olhá-lo, tentando se concentrar em responder a pergunta, mas demora, fazendo-o esperar "quase uma eternidade":
-Sim, moro em sampa. E você?
Os olhos do rapaz brilham de felicidade ao ouvir isso.
-Significa que a gente vai se ver de novo quando voltar pra casa.
-E por que eu ia querer te ver de novo? Você é muito chato! - brinca Jú abrindo um sorriso tão simpático que o faz parar um instante para admirá-la. Julie emanava uma luz própria que contagiava tudo a sua volta, sua alegria e seu carisma eram capazes de deixá-lo atordoado, tanto quanto a beleza de sua face ou o contorno de seu corpo escultural.
-Puxa! Sou chato, é? - faz cara de coitado. - Eu iria até o fim do mundo por você, gata... - dispara num tom conquistador.
Julie ri duvidando dele e rebate:
-Mesmo? Se for, aproveita e fica por lá!
O fato é que entre risos, um começou a se aproximar do outro sem sentir... E quando perceberam, seus rostos estavam bem perto, Jú por acaso desvia os olhos um segundo e vê algo que a fez dar um passo largo pra trás sem pestanejar... Vê dois homens altos, fortes, vestidos de preto, se aproximando do local onde conversavam cheios de autoridade. Por sorte, o dono da reserva surge por atrás da fonte luminosa retardando a passagem deles. Um desses homens, Julie conhecia muito bem... Discreta, move os lábios dizendo entredentes:
-Lu-ke!
Seguindo o olhar dela, Dan avista Luke – do outro lado do jardim – conversando com o dono do resort. O que temiam acontecia!!! Luke tinha os achado!! Tirando o óculos de sol do rosto da Julie e colocando em si mesmo, Dan chega mais perto e sussurra em seu ouvido:
-Avise Andy. Depressa!
-Mas... E VOCÊ?? O que pensa em fazer? - quis saber apreensiva.
-Vou despistar, depois pego o carro e encontro vocês atrás do chalé- ele tira algo do bolso e entrega a ela: era uma foto. - Julie, se algo acontecer comigo...
-Cala a boca! Nada vai acontecer! – ela bate os olhos na foto antes de guardar na bolsa: era o zoom da clareira onde no meio da fumaça era possível identificar a ponta de um objeto metálico. - É o disco voador!! Por que escondeu essa foto, Dan? Devia ter mostrado antes!
-Porque é a única prova que temos! E porque Andy ia dizer que é só uma pedra amassada pelo vento– ele ri nervoso, ajeitando o óculo feminino da Julie no rosto. - Agora, vá!
-Ok, beleza!... Só não faça nenhuma besteira! – aconselha, antes de pegar o caminho de volta em passos ligeiros. Incrível como a vida é engraçada... Conhecia Daniel e Andy a menos de 24 horas e já temia por perdê-los... Do que Luke era capaz? Até onde iria para fazê-los esquecer a verdade??























