terça-feira, 29 de março de 2011

"Evidências"

Esticando os braços ainda sonolenta, sentindo o calor do sol penetrar pela janela unido ao canto vibrante dos pássaros, Andy concorda com ele (e naquele momento concordaria com tudo que dissesse), torcia pra que nada a fizesse levantar daquela cadeira tão relaxante, que lembrava a velha cadeira de balanço da sua finada vó Maria:
-Ok, Dan, vamos falar do OVNI. O que descobriu?

Ele tira um chaveiro dourado do bolso, todo exibido, e começa a balançar as chaves no ar contando:

-Primeiro, quero dizer que comprei um carro com uma gatinha que conheci a noite passada...
-Com uma “galinha” que conheceu? - interrompe Jú sarcástica.
-Disse gatinha! - corrige.
-E o que mais? -Andy ansiosa, cutuca ele.
-Em segundo, revelei as fotos da clareira - conta.
-Fotos??? - Jú interrompe de novo. - Que fotos?? Como tirou fotos sem câmera?
Entregando as fotos a Andy, ele responde:
-Usei um binóculo com câmera digital embutida. Sou o máximo, não sou? Um detetive sem equipamentos de ponta não é nada.
-Baixa um pouco essa bola, vai – pede Julie revirando os olhos cômica e tirando o chaveiro da mão dele. - Aposto que esse carro nem sai do lugar!
Sem perder tempo, Andy levanta da cadeira e espalha as fotos sobre a cama, uma ao lado da outra. As imagens lembravam as antigas fotos estilo polaroid, haviam umas queimadas e tremidas, o colorido pássimo. Andy conclui que a noite e a fumaça foram fatores que minaram a nitidez das revelações. Após uma boa análise visual sobre o lençol de oncinha da cama dele, comenta:
-Tsc-tsc... Só vejo fumaça!... Ah! Sim, sim, sim! - pula comemorando. - O Luke saiu um gato nessa foto! Posso ficar com ela?
Dan franze as sobrancelhas invocado:
-Qual? Aquela que cortei metade da cara dele? - risos.
Nisso, Jú larga o pacote de bolachas e empurra os dois só pra pegar uma foto entre as demais... Algo tinha chamado sua atenção!
-OLHEM!!! Viram o solo perto do ovni? É seco e rachado. Estranho, porque onde estávamos o solo era normal...
-A falta de chuva deve ter ocasionado isso – sugere Andy sem se abalar.
-Mas, se fosse assim, toda a região estaria seca, não é? - Dan pega outra foto. - As copas das árvores perto do acidente aparecem queimadas!... E, não esqueçam o comportamento bizarro dos animais!
Ignorando as evidências que “gritavam” diante de seus olhos cor de mel, Andrea vai até a enorme janela de vidro olhar a paisagem. O chalé dava para um imenso lago, em meio a uma rica natureza selvagem, onde zebras, veadinhos, e muitas espécies de macacos, inclusive os vervet e babuínos, matavam a sede as margens de suas águas turvas. De costas para os amigos, ela ouve Julie concordando com Daniel:
-Caraca! É mesmo! Os morcegos que voaram atrás de nós pareciam bem agressivos e tinham um brilho diferente nos olhos...
-Brilho, é? Talvez estivessem apaixonados! – zomba Andy ainda de costas. - Sabem o que penso disso. É ridículo! Sei que esse lugar é maravilhoso, mas preferia estar mergulhando entre os corais da Austrália nesse exato momento, bem longe dessa confusão toda.
-Se tivesse ido pra Austrália, teria perdido o Big Five: leão, onça, elefante, búfalo e rinoceronte – arrisca Julie tentando animá-la. - Tá, ainda não vimos todos esses animais, mas quero ver. Meu, a África é tudo de bom!
-Jú, você é tudo de bom! – ele cochicha no ouvido da Julie, que sorri sem acreditar no elogio que acabava de ouvir.
Com um sorriso otimista nos lábios, Dan se aproxima de Andy, põe um braço ao redor de seu ombro e com o outro abre a larga janela de vidro. Estavam em uma dessas reservas onde os animais menos perigosos viviam soltos ao lado de uma infinidade de pássaros, cerca de 500 espécies voavam em liberdade em seu habitat natural. A sensação era de estarem na selva, só que dentro de um chalé. Num tom reconfortante, Daniel fala:
-Andy, nós tínhamos planos diferentes, eles mudaram. As coisas mudam... Estamos ferrados e sem rumo, mas ainda podemos nos divertir, temos um carro! Quer ver?
Passeando pelo quarto do Dan e xeretando tudo a sua volta, Julie esbarra sem querer no laptop que cai no chão fazendo barulho. TEC! Ao se abaixar para pegá-lo, sentindo-se uma desastrada completa, ela nota que a tela exibia uma página codificada:
-Que é isso?
Virando pra trás com o barulho, Dan vai conferir de perto e admite:
-Baixei um arquivo secreto chamado The eXplorers de um site estranho que falava sobre “Conspirações e Alienígenas”... Parece que o download foi concluído e com a queda, o arquivo abriu.
De repente a Austrália perdeu toda a importância. Movida por uma notável curiosidade feminina, Andy vem se juntar a dupla para espiar o visor. Usando o dedo ao invés do mouse, ela faz a página rolar para baixo com rapidez:
-Uau! É uma página inteira codificada!!!... E, pelo visto mistura três línguas distintas: grego, navarro e a terceira língua é a... Hã, ainda não tenho certeza.
-Pode decodificar? - Jú quase grita na expectativa.
-Claro! – afirma Andy como se fosse muito fácil pra ela. - Estudei várias línguas depois que abandonei o curso de arqueologia. A minha preferida é o latim!
Julie se põe a imaginar o que teria levado Andy a abandonar um curso, já que tal atitude não batia com o perfil dela. Para alguém que demonstrava ser o tipo de garota correta, do tipo intelectual, que quando se propõe a fazer algo vai até o fim, sem deixar nada pela metade, era difícil entender suas razões obscuras. Então, graças a sua distração idiota, Dan segura em sua cintura e a puxa pra junto dele, dando-lhe um amigável abraço de urso.
-Jú, quer ver o carro? Andy não sairá daqui até decifrar isso, conheço ela.
-Um segundo! - pede, soltando-se dos braços dele e tirando uma vela do bolso para acender próxima a cortina. - É uma vela aromática de limão, ajuda a tranquilizar – vira pra Andy. - Tem certeza de que não quer vir com a gente?
Balançando a cabeça em negação, Andy volta a sentar na memorável cadeira de balanço enquanto Jú e Dan seguiam até a porta.
-Peraí! Não tem uma regra nesse resort sobre deixar as janelas abertas? Acho que é proibido.
Dan ri antes de sair. - Que nada! Isso é só pra quem tem medo de mosquito. Deixe aberta, tá um calor danado!
-Ok.
Julie e Dan caminham devagar, lado a lado, conversando descontraídos por uma trilha que parecia um labirinto, onde o chão forrado de pedrinhas produzia um som agradável a cada passo que davam, envoltos pela vegetação típica africana. Tudo fluia na mais perfeita harmonia, borboletas coloridas bailavam ao seu redor e Julie podia jurar ter visto um bicho preguiça no galho de uma das árvores, o que a fez lembrar de Sid, a folgada e divertida preguiça do filme A Era do Gelo...
Em clima de bom humor, ambos chegam ao local onde está o carro, de frente para um belo jardim de fonte luminosa no centro. Aquela reserva de 12 mil km de ar puro e relax total, transmitia a sensação de estarem no paraíso... Sem dar a mínima para o carro velho estacionado a sua frente, Julie preferia admirar Daniel que agora havia encostado em um muro forrado de verde por todos os lados. Assim, de costas para o imenso jardim do resort, aquele homem era uma beldade, tal como um “meteorito de encontro a terra” lindo de se ver e inevitável! Seus olhos assumiam um tom esverdeado aquela manhã e olhavam direto na sua direção, de um jeito atento tornando quase impossível desviar daquele olhar! Julie “viajava” imaginando como seria se fossem namorados ao invés de amigos, e consentia com um gesto de cabeça toda vez que ele falava qualquer coisa boba sobre a reserva. O assunto não importava, apenas seu tom de voz baixo e aveludado. Até que ele parou de falar na reserva e quando Julie menos esperava, perguntou na lata:
-Ainda não me disse porque você viajava sozinha pra Austrália... Tava fugindo da polícia? - seu olhar agora parecia carente por respostas, apesar do tom brincalhão.
-Austrália? - repete sem prestar atenção.
-Sim, nosso avião ia destino Austrália, lembra?
Julie concorda, só então rindo pelo modo sarcástico com que ele havia se referido antes, depois desvia os olhos um instante, e enrola:
-Ah! Eu ia encontrar umas amigas... Numa festa rave aí...
Agora é Dan quem racha de rir:
-Você? Numa festa rave? Tá bom!... Diz pra mim, de onde você é? São Paulo?
Ela volta a olhá-lo, tentando se concentrar em responder a pergunta, mas demora, fazendo-o esperar "quase uma eternidade":

-Sim, moro em sampa. E você?
Os olhos do rapaz brilham de felicidade ao ouvir isso.
-Significa que a gente vai se ver de novo quando voltar pra casa.
-E por que eu ia querer te ver de novo? Você é muito chato! - brinca Jú abrindo um sorriso tão simpático que o faz parar um instante para admirá-la. Julie emanava uma luz própria que contagiava tudo a sua volta, sua alegria e seu carisma eram capazes de deixá-lo atordoado, tanto quanto a beleza de sua face ou o contorno de seu corpo escultural.
-Puxa! Sou chato, é? - faz cara de coitado. - Eu iria até o fim do mundo por você, gata... - dispara num tom conquistador.
Julie ri duvidando dele e rebate:
-Mesmo? Se for, aproveita e fica por lá!
O fato é que entre risos, um começou a se aproximar do outro sem sentir... E quando perceberam, seus rostos estavam bem perto, Jú por acaso desvia os olhos um segundo e vê algo que a fez dar um passo largo pra trás sem pestanejar... Vê dois homens altos, fortes, vestidos de preto, se aproximando do local onde conversavam cheios de autoridade. Por sorte, o dono da reserva surge por atrás da fonte luminosa retardando a passagem deles. Um desses homens, Julie conhecia muito bem... Discreta, move os lábios dizendo entredentes:
-Lu-ke!
Seguindo o olhar dela, Dan avista Luke – do outro lado do jardim – conversando com o dono do resort. O que temiam acontecia!!! Luke tinha os achado!! Tirando o óculos de sol do rosto da Julie e colocando em si mesmo, Dan chega mais perto e sussurra em seu ouvido:
-Avise Andy. Depressa!
-Mas... E VOCÊ?? O que pensa em fazer? - quis saber apreensiva.
-Vou despistar, depois pego o carro e encontro vocês atrás do chalé- ele tira algo do bolso e entrega a ela: era uma foto. - Julie, se algo acontecer comigo...
-Cala a boca! Nada vai acontecer! – ela bate os olhos na foto antes de guardar na bolsa: era o zoom da clareira onde no meio da fumaça era possível identificar a ponta de um objeto metálico. - É o disco voador!! Por que escondeu essa foto, Dan? Devia ter mostrado antes!
-Porque é a única prova que temos! E porque Andy ia dizer que é só uma pedra amassada pelo vento– ele ri nervoso, ajeitando o óculo feminino da Julie no rosto. - Agora, vá!
-Ok, beleza!... Só não faça nenhuma besteira! – aconselha, antes de pegar o caminho de volta em passos ligeiros. Incrível como a vida é engraçada... Conhecia Daniel e Andy a menos de 24 horas e já temia por perdê-los... Do que Luke era capaz? Até onde iria para fazê-los esquecer a verdade??

terça-feira, 8 de março de 2011

"Algo Suspeito!"

Quando Julie entrou no chalé, Andy encontrava-se de pé sobre a cadeira de balanço tentando se equilibrar como uma surfista em cima de uma prancha de surf em dia de maré alta. Antes de perguntar, ela notou que havia um macaco sentado na cama, de óculos escuro, relógio no pulso e discando um número qualquer no celular, enquanto tudo a sua volta encontrava-se de pernas pro ar. Julie cruza os braços, incrédula:
-O que um babuíno faz aqui dentro?
-Veio visitar você – diz Andy sarcástica. - O QUE ACHA? ESSA COISA INVADIU O QUARTO! ME FEZ DE REFÉM!

-Ah, bom! - rindo. – Então, é por isso que temos de manter as janelas fechadas?... Ao menos não é uma cobra! Ou pior, UM LEÃO... – Jú se aproxima para dizer a novidade. - Ah! Luke tá aqui!
Andy a encara para checar se era verdade. O perigo era óbvio, na dúvida o melhor era correr. Com rapidez, ambas guardam roupas e utensílios básicos em uma mala de mão e pulam pela janela, deixando todo o resto pra trás com o macaco. Um carro freia do lado de fora bem na hora. Era Dan no volante. Julie senta no banco da frente num pulo, Andy passa pra amiga a mala de mão e o laptop, aproveitando pra usar o espelho do carro e passar um protetor labial que acabava de pegar da bolsa. Sua pele clara e lábios delicados exigiam todo o tipo de cuidado a luz do sol.
-Cadê a foto? - pergunta Dan estendendo a mão louco para rever sua "foto premiada".
Julie procura nos bolsos e responde sem jeito:
-Er... Ficou no chalé!
-Quê? - expressa no olhar toda sua decepção.
-Enquanto eu guardava as coisas, deve ter caído!... - ela tenta levantar, mas Dan a impede esticando o braço e prendendo o cinto de segurança nela. - Preciso voltar lá, Dan...
-Não! - lança um olhar intimidor.
-Dan, preciso voltar, é sério!! É nossa única prova!
-Esquece.
-Por quê? - teima.
-Prefiro perder uma foto a perder você – confessa, desviando os olhos pra Andy que agora abria a bolsa e tirava de dentro sua coleção inteira de lipgloss. - Vamos, Andy, isso aqui não é salão de beleza, estamos na África! Os elefantes nem vão ligar se seus lábios tiverem rosa ou laranja!
-É, agiliza isso!!! - chama a amiga enquanto tirava o cinto e levantava para olhar se vinha alguém. - Luke deve estar vindo pra cá com um batalhão!

Quando Julie levanta, Dan vê a foto saindo de trás do bolso da calça dela e puxa, abrindo um sorriso:
-Jú, tava no seu bolso o tempo todo!
Ela volta a sentar e toma a foto da mão dele para conferir:
-É mesmo! Acho que guardei aí na correria e esqueci! - sorri e vira pra Andy. - Amiga, quero que veja uma coisa.
-Nada a ver, é bobagem - diz Dan tentando tirar a foto da mão da Julie que por sua vez, tenta impedir. Nessa brincadeira, esbarram na Andy que borra a maquiagem pintando a ponta do nariz. Para desespero dos dois, ela passa um lenço de papel Soft e começa tudo outra vez.
Julie enlouquece:
-Não acredito nisso! Ela é mais doida que eu! Anda logo, "Barbie"! Ou vão nos pegar!!
Olhando para o longe, além da área da savana, onde viviam os animais selvagens com acesso restrito aos hóspedes, Julie repara que os animais de repente haviam silenciado, como se sentissem que uma ameaça se aproximava... Ela levanta de novo e olha para os lados, mas nem sinal de perigo, embora sua intuição aguçada dissesse que Luke estava cada vez mais perto... Então, Dan vem com uma pergunta inútil:
-Galera! Cadê o resto da bagagem???

-Já era! Somos fugitivos agora, metade das coisas ficaram no chalé - diz Andy aproveitando para ajeitar os cabelos diante do espelho. A cor indicava que estavam sem brilho, isso era preocupante!
-Tá. Damos um jeito de recuperar depois - ele passa a mão na testa suada. - Que sol! Aí, por acaso tem protetor solar nessa sua bolsa?
-Shhh! - Jú pede silêncio. - Por que as girafas estão olhando pra nós?
Bastou ela falar, para Daniel e Andy virarem para as girafas e perceberem que era verdade... Nisso, ambos ouvem uma voz conhecida berrar atrás deles:

-VOCÊS! PARADOS AÍ!
Tempo esgotado! Andrea mergulha dentro do carro e olha pra trás enquanto partiam... Sim, aquela voz grave e sexy era do Luke!!... Ele viu quando aceleraram o carro e na pressa, Julie deixou escapar uma foto que segurava na mão... E o vento a trouxe direto para os pés de Luke. Ele se abaixa com uma expressão vazia no rosto, pega a foto do disco voador ampliada, amassa na palma da mão irado, depois leva o papel a boca e engole sem sal. Tudo acontece rápido demais, ele ainda olhava para o carro deles enquanto fugiam... Luke estava parado a poucos metros do chalé... Talvez por isso não tenha se machucado, quando uma estrondosa explosão levou o chalé das meninas pelos ares num segundo!...
Dan derrapa o carro e gira, levantando uma vasta nuvem de poeira do chão, interrompendo a fuga. Os três olham para as chamas fumegantes ao mesmo tempo e pra Luke, que foi atirado milhas longe com o impacto, mas deu para ver que ele começava a se mexer caído no chão.

-Jesus! - fala Andy boquiaberta, enquanto a fumaça negra subia ao céu.
-ELE EXPLODIU NOSSO CHALÉ! - grita Jú chocada. - Ainda acha que não querem nos matar, Andy? Acha? Puxa! Nos metemos numa encrenca das grandes!
-E bota grande nisso!... - acrescenta Dan de boca aberta. - As coisas que deixaram no chalé foram por água abaixo.
-Por cinza abaixo – corrige Andy olhando preocupada para Luke, que levanta a cabeça e olha na direção dela. E os dois ficam imóveis numa rápida fração de segundos, ignorando a explosão, a fumaça e todo o resto do universo... Como se o tempo tivesse paralisado de repente... Andy só desvia dos olhos azuis dele, quando ouve a voz aflita de Julie ao seu lado, fazendo mil perguntas. Ela havia pulado pro banco de trás para xeretar mais de perto.
-Como vamos escapar disso? Quem acreditará em nós?
Segurando firme no volante, Dan se enche de coragem e pisa fundo, levantando poeira do chão:
-Alguém acabará nos ouvindo. Julie.
Pelo menos, era isso que "ele" queria acreditar e onde depositava sua fé.
...Após deixarem o resort e seguirem horas por uma estrada deserta, o carro que já fazia barulho no motor, pára de funcionar de vez. Uma família de macacos passa na frente deles rebolando, como se zombassem da situação em que se encontravam, tendo como plano de fundo a bela paisagem natural que se assemelhava a uma pintura em tela da África do Sul. Daniel pega sua câmera digital e salta do carro disparando clicks pra todos os lados, sentia preguiça demais para pensar, preferia deixar que Andy cuidasse dessa parte. Ela, por sua vez, percebendo que seu celular tava sem sinal, abre o mapa que ganhou no resort e depois de uma olhada rápida, avisa:

-Analisando o mapa local, posso garantir com certeza que... Estamos perdidos! – ela passa o mapa pra Julie que não parecia nem aí, brincando com um colar de pedrinhas coloridas que trazia no pescoço.
Sem idéias, as duas viram pro Dan e esperam uma solução mágica.
-Qual é? Não é minha culpa se o carro pifou - ele se defende. - Tá, eu devia ter feito uma revisão a noite, mas... Tava ocupado.
-Claro! Super ocupado dando um amasso na dona do carro!– dispara Ju sentindo uma pontinha de ciúmes. Então põe um boné na cabeça: com seu nome bordado nele, e pula pra fora do carro. - Pelo menos não fomos seguidos... ainda
Nessa altura, Andy procura ser prática:
-Ok. Quais são as nossas opções? Andar?? Talvez tenha um posto por perto, ou um Mc Donald's com acesso a internet...
Julie ri. - Sonhadoraa! Somos as únicas pessoas nessa estrada deserta e você quer achar um Mc DONALD's??? Sei, até parece!
Por um lado, Daniel sabia que se desistissem agora, nada ia resolver. Com seu jeito brincalhão, ele trata logo de animar as meninas:
-Ei! Cadê o espírito aventureiro de vocês? Nada melhor que sair da estrada e explorar uma trilha secreta a pé. Podemos ir a lugares onde o carro não chega. Quem topa ir comigo?
Descolada, Julie se pendura nas costas dele, segurando em seu pescoço , e propõe:
-Eu topo, desde que me leve no colo! – brinca. Então, Dan aproveita que ela está em suas costas para girá-la no ar, fazendo-a rir.
-Gente! Isso é sério! - Andy chama a atenção e é ignorada. - Ei! Querem me ouvir?
-Tá bom. - Dan pára e Julie pula pro chão feliz da vida. Estava adorando cada momento que passava com ele, por mais insignificante que fosse, era sem dúvida especial.
Com um sorriso de quem vai aprontar, Julie corre até Andy e cochicha em seu ouvido:
-Esse mal humor é por que sente falta do Luke?
Andy fica corada, sem saber o que dizer, mas nem precisou, porque quando Julie riu, engoliu um mosquito por acaso, afastando-se dos dois tossindo - Oh! Acho que engoli um mosquito!
Enquanto Dan fazia uma careta engraçada, Andy abriu a mala de mão, apanhou uma garrafa d'água mineral e entregou a amiga, que bebeu um gole sentindo lágrimas correrem por seus olhos castanhos. Que eca!
-Tem razão, Dan. Corremos perigo ficando aqui – admite Andy saindo do carro. - Temos que nos mover. Eu trouxe lanche. Que tal comer pelo caminho? Apesar que Julie já comeu alguma coisinha... - brinca com um sorriso matreiro nos lábios, piscando pro amigo.
-Muito engraçadinhos os dois! - resmunga Jú jogando as últimas gotas d' água da garrafa no rosto do rapaz, que ri sem se incomodar. Com o calor que fazia, receber água era um favor!
Assim, nossos heróis deixam o carro e caminham em frente. A sensação era de profundo isolamento, de estarem entregues ao sabor da aventura. Com fome, Andy tira da pequena mala de mão uma pizza tamanho gigante e três latas de refrigerante. Por hora, era tudo o que podiam desejar...
-Putza?- ri Jú sem se conter. - Não tinha uma pizzaria com nome melhor?
-Tinha a “Mais ou menos” - Dan fala com uma azeitona dançando na boca.
-Pizzaria “Mais ou menos”???
-É. Aquela que você come mais e paga menos – explica Andy rindo. - Mas, só a Putza tem bordas recheadas! Huuum! Amo bordas! É uma delícia sem igual!
-Putza! Que pizza! - concorda Julie adorando o recheio. - Onde fica essa Pizzaria???
-Pertinho da casa da Andy – Dan abre a latinha de refri. - Qualquer dia eu te levo lá, Jú.
-Na Pizzaria?
-Não, na casa da Andy. É só usar o disk-putza!
O sol quente agora se revezava com uma brisa fria que batia em seus rostos com força, despenteando os cabelos e formando uma mistura gostosa de temperaturas, algo diferente do comum, assim como toda essa viagem. Sem opções, adentram numa trilha aberta onde a natureza vibrava ao seu redor, em suas múltiplas faces, formas e cores, exalando ar puro que enchia os pulmões. Os sons de aves penetravam em seus ouvidos vindos de todos os pontos, numa sinfonia única, as aves preparavam-se para recolherem-se nos ninhos, junto aos seus filhotes, antes do cair da noite. Abrindo a mochila e entregando seu binóculo a Julie, Dan desafia:
-Você acha que tem sorte?
Aceitando o desafio, ela leva o binóculo aos olhos e sorri vislumbrada. - Uma fazenda!!!! Vejo uma fazenda!!!

"Siga as Pistas"

Regiao de Suazilandia, Africa – Fim de tarde
-Tudo bem, meninas, só mais 1 km e vocês ganham um mouse de chocolate gigante! – brinca Dan comendo balinhas coloridas.
-Mal aguento dar um passo, você quer que eu ande 1 km? Por acaso esse mouse é light? - protesta Andy sorridente, apesar do cansaço que invadia seu corpo esbelto. - E cadê a fazenda que Julie viu? Daqui a pouco chego em sampa e não chego na fazenda! Rsss
Rindo da brincadeira, Jú assume a dianteira na caminhada. Ela gostava de seguir na frente, de ser a primeira a chegar nos lugares, não gostava de ficar por último em nada, era o tipo de pessoa que preferia abrir a festa ao invés de chegar tarde e perder a melhor parte.
-A fazenda tá logo depois daquela pedra – aponta com o pé. - Dá pra ver que estamos perto.
-Você disse isso há três horas atrás – Andy pega uma bala amarela com Dan e atira na boca, sentindo seu sabor doce-azedinho se desmanchando na língua.
Tendo um bom faro como ninguém, Daniel segura no ombro das duas para que parassem. Elas viram pra ele, que alerta baixinho:
-Aquilo não é pedra... É um rinoceronte de verdade!
Jú checa com o binóculo. Sim, ele estava certo e a partir de já todo cuidado era pouco. Num sussurro, Andy pergunta:

-O que esse bicho faz sozinho no meio do mato?
-Fugiu de alguma savana, ou de um caçador... Sei lá! – responde Julie tão baixo quanto uma melodia, ainda vigiando o rinoceronte com o binóculo. - Vamos ter de passar por ele.
Guardando as balas no bolso e deixando cair algumas com a agitação, Dan discorda:
-Passar como??? É arriscado demais, gata!
Voltando-se para ele, a jovem explica:
-Os rinocerontes não enxergam direito. Se andarmos em fila, ele vai pensar que somos um animal grande e terá medo de nos enfrentar.
-E quem garante? - pergunta, enquanto brincava com um galho fino de árvore que pegou do chão.
Devolvendo o binóculo a ele, Jú diz sarcástica:
-A mesma garota que viu um rinoceronte e achou que fosse uma pedra! –sorriu. - Bom, minha irmã é casada com um geólogo e vive na África há uns anos, ela me ensinou o básico sobre vida selvagem.
-Sua irmã é louca como você? - provoca Dan, ganhando na mesma hora um beliscão da Andy no braço.
-Aiii!!!
Com um sorriso aberto no rosto, Jú responde tão sarcástica quanto antes:
Não, eu sou a anormal da família - risos. - Fala sério, gente! Podemos voltar para lugar nenhum, ou seguir em frente... Quem tá comigo? – Jú estende a mão direita e os dois demoram um segundo, mas acabam juntando as mãos sobre a dela, era como se juntos formassem um trio imbatível. Retornar agora seria um erro, sem falar que estariam arriscando bater de frente com Luke Robbins, melhor seguir adiante, apesar dos obstáculos.
-O que fazemos pra evitar chamar atenção do rino? - Andy quis saber.
Com voz de experiência em safari, Jú declara, antes que soltassem as mãos:
-Duas dicas: não façam barulho e nem sintam medo... Rinocerontes são capazes de sentir o medo das pessoas e atacar – vira. - Vamos!
Dan e Andy prendem a respiração e com ela o medo... Em silêncio, seguem em fila indiana torcendo pra que aquela fera ignorasse a presença deles. O animal, enorme e ranzinza, ameaçou avançar assim que os viu, mas começou a mastigar alguma coisa do chão e por sorte desistiu... Graças a Julie, mais uma vez venciam um novo desafio... Passando pelo rinoceronte, eles chegam a uma velha ponte de cordas sobre as alturas. De onde estavam, viam do outro lado uma linda casa branca: era a sede da fazenda. Só que a ponte se encontrava sobre as árvores mais altas, num “desfiladeiro mortal”. Depois de jogar uma pedrinha pra baixo e vê-la desaparecer na imensidão verde sem produzir som, Andy se afasta da ponte apavorada:
-Sem chance! Nem que a vaca tussa!
Daniel larga a mala de mão no chão e aproxima-se dela:
-Por quê? Nunca teve medo de altura, Andie!
-Talvez eu tenha agora... Depois do que passamos naquele vôo... Quase morremos a noite passada, Dan! Esqueceu?... Sem ofensa, Jú, mas foi como uma montanha russa sem trilhos! – ela vira pra Julie que acabava de sentar na beira da ponte. Seu olhar parecia distante, vago, como quem está em transe ou algo assim, mas Andy não se dá conta disso e continua a tagarelar com seu melhor amigo, que também não percebe. - Só sei, que deve haver um jeito mais fácil de chegar do outro lado.
-Claro que sim, “voando”, igual superman – zomba Dan gesticulando. - Ou, se preferir, posso arranjar um cipó...
Ignorando-o por completo, ela decide buscar outra saída que aumentasse suas chances de vida. Mas, ao ver que Andy ia sair de perto deles, Julie levanta num susto e corre até ela, segurando seu braço sem explicação para impedir que desse um passo sequer pra qualquer direção. Como se não bastasse, a encarou deliberando uma ordem:
-NÃO SE AFASTE!
Surpresa com a reação dela, Andy esboça um sorriso desconcertado e puxa o braço dizendo:
-Calma aí, Jú. Só quero ver se há outro caminho pra fazenda. Acha que vou tropeçar e cair desfiladeiro abaixo?
Julie balança a cabeça em negação, como se pensasse em algo pior do que tropeçar e cair do desfiladeiro, algo mais lento e doloroso. Porém, se limita a fechar a boca sem balbuciar uma palavra. Guardava um segredo precioso dentro de seu coração, no fundo de sua alma atormentada, algo tão obscuro que as vezes ela própria julgava desconhecer as chaves desse mistério. Por isso, nada podia dizer, era cedo para revelar sobre suas habilidades, embora pudesse sentir que seu segredo estava perto de vir a tona... As vezes, é necessário correr riscos para salvar a vida de alguém, ainda que isso signifique expôr aquilo que você mais deseja esconder do resto do mundo... Num tom sinistro, Julie afirma:
-Andy, se não me ouvir... uma cobra pode picá-la.
Por um segundo, a loira fica encarando Julie desconfiada. Mas, isso leva só um segundo. Com o semblante de dúvida, ela vasculha o chão com o olhar, mas logo volta a rir, argumentando:
-Não vejo cobras aqui.
Os lábios de Julie se movem, como quem está prestes a revelar algo importante, mas prefere continuar calada. Nada que dissesse valeria a pena... Apenas continua firme onde está, pronta para impedir caso Andy tentasse se mexer de novo. Enquanto isso, varrendo a área com os olhos atentos, Dan nota quando uma pequena cobra sai de trás das folhagens, bem no caminho onde Andy ia pisar. Em tom de pressa, ele avisa:
-Eu tô vendo! – aponta. - Mas, é só um “bebê”...
-É uma cobra cuspidora! – revela Julie em tom de suspense. - Seu veneno mata em 24 horas e se cuspir o veneno nos olhos de alguém; cega.
Dan e Andy paralisam de pavor. Se Julie não tivesse segurado Andy a tempo, ela seria picada!!! Mas, ao salvá-la, deixou um mistério no ar: Como viu a cobra se estava sentada tão longe??? E ainda mais com o rosto virado pro lado oposto??? Sem dizer nada, Julie se abaixa, pega a mala de mão do chão e segue pela ponte sem olhar para trás, indo ao encontro do próprio destino. Ignorando o balançar, o ranger das cordas bambas e o som de madeira velha rangendo, Dan e Andy fazem o mesmo. Talvez fosse mais seguro encarar o desfiladeiro do que ficar ali com a cobra, o rinoceronte, e outros animais ferozes que pudessem surgir. Ainda mais agora, tão perto do cair da noite no continente africano...

Minutos Depois...


O que eles não sabiam, o que sequer imaginavam... É que Luke e seus homens vinham dentro de seus carros pretos ônix na direção da fazenda, fazendo o mínimo barulho possível, faróis baixos, para não chamar atenção. Já começava a anoitecer quando Luke, “o mal em pessoa”, brecou seu furgão e saltou para apanhar algo espalhado no chão... Eram balinhas coloridas... Mas, ele sabia que significavam bem mais do que isso. Então, esboçou um sorriso de vilão de cinema, voltou pro carro e fez sinal para que seguissem.


"Cowboy vs Aliens"

Sobrevivido a ponte, que parecia ter saído direto dos filmes do famoso arqueólogo Indiana Jones, e que desaba assim que atravessam, os bravos viajantes alcançam uma larga porteira pintada de vermelho onde abaixo havia uma velha placa caída no chão contendo uma mensagem sinistra em inglês...
Enter at own risk
-Entre por risco próprio – traduz Julie afiada no idioma estrangeiro.

-Convidativa essa placa, hein? - comenta Andy. - É capaz de ter um pit bull enorme aí dentro, ou um rottweiler.
-Isso que vamos descobrir!
Sem se preocupar com o que poderia encontrar do outro lado, Dan pisa na placa, abre a porteira e entra na fazenda, seguido de perto por Julie. Só Andy permanece lá fora, com os pés fincados no chão, braços cruzados de frio:
-Gentee, não é certo invadir propriedade alheia!
Ela pensa se eles a achavam “careta”, mas havia algo dentro de si que a impulsionava a fazer sempre o que é correto, por mais que desejasse agir como eles não conseguia. A espera do impasse, Julie tira a mochila das costas pra procurar algo, enquanto Dan sorri de leve e responde com ar cansado:
-Fala sério, Andy! Tamos desesperados, gata! A parada é de emergência, precisamos de um telefone... E de uma lasanha com molho branco, umas horas assistindo uma boa tv a cabo e o melhor: um litro de C gelada pra início de conversa.
 -E de um poço dos desejos – brinca Jú vestindo uma blusa branca por cima da vermelha que usava e colocando um gorro azul na cabeça, agora que o tempo começava a esfriar tinha que se prevenir. No embalo, Dan puxa uma camiseta preta da mochila dele, veste depressa e ainda faz a gentileza de pegar um casaco rosa e jogar pra Andy.
-Obrigada, amigo! Eu já disse que você tá lindo essa noite? – elogia Andy só pra puxar o saco.
-Valeu! – ele abre um sorriso de orelha a orelha, se achando o homem mais lindo do universo.
Então, Julie corta a alegria dele:
-NoOssa! Tem gente que mente pra caraca, hein?
Espantado, Dan vira pra Julie sem acreditar no fora que acabava de levar, enquanto ela ria sem parar do seu lado. Será que tava falando sério, ou era só gozação? Pra tirar a dúvida, Dan vem de mansinho por trás dela e a abraça de repente, bem apertado com seus braços fortes que mais pareciam uma camisa de força, depois sussurra em seu ouvido:
-Tá de brincadeira, não é? A mulherada toda se mata por mim...
-Nem todas! – ela dispara, mantendo o sorriso nos lábios. - Eu não!
Ele sussurra mais uma vez, aproveitando para sentir o estonteante perfume de rosas que vinha de seus cabelos castanhos:
-....Essa é a primeira vez que levo um fora. Só não fico triste porque sei que tá mentindo, afinal, só as garotas mais belas tem o gênio mais intempestivo.
-Sei... Vai me soltar agora, Tarzan? - a voz sai entrecortada, quase sem saber o que dizer diante daquele elogio inesperado dele. Ao contrário do que Julie esperava, Dan tinha respondido sua provocação com luva de pelica: a doçura contida no seu tom de voz quente em seu ouvido a deixou literalmente balançada.
Dan a solta e se afasta devagar, sem tirar os olhos dos dela. Julie o encara de volta desfazendo o sorriso no rosto... Era indiscutível o quanto aquele cara era irresistível!... Além de ter um abraço super gostoso, que pegada!! Também reparou no momento em que ele desviou os olhos verdes, abrindo um meio sorriso no rosto... Será que o elogio foi sincero??
Sorrindo pelo jeito de “cão e gato” deles, Andy se empolga, pula a placa do chão, indo ao encontro dos dois:
-Tá bom, vambora! Se emprestarem o chuveiro, já fico feliz!!! - ela passa por eles, que a seguem.

Fazenda Cheetah – Africa do Sul

A sede da fazenda era pitoresca, a primeira vista sua fachada aparentava mais luxo do que vida selvagem. Do lado de fora, havia gente por todo lado, era como se uma balada estivesse prestes a acontecer... Pessoas iam e vinham levando mesas, bancos e pratos, tochas eram acesas em pontos estratégicos, criando um clima bucólico de festa ao luar. Uma música com batuques de tambor ao fundo de repente ecoa pelas caixas de som, ao mesmo tempo em que um aroma saboroso de churrasco tomava conta do ambiente. Com sorte o dono daquelas terras era brasileiro e não lhes negaria ajuda, melhor, deixaria que participassem da festa. O trio de aventureiros alcança a porta principal da casa e como não acham a campainha e nem vêem um pitbull por perto, Andy bate palmas. Através da porta aberta, tinham uma visão total da sala, um ambiente onde reinava o conforto, a tranquilidade, sua decoração country com esculturas de cavalos talhadas em madeira sobre o móvel de trás do sofá eram magníficas. Pessoas circulavam pela casa a todo instante falando num dialeto desconhecido: o dialeto africano. Como ninguém aparece para recebê-los, Daniel bate palmas pela segunda vez impaciente. Nada, então, Julie se atreve a entrar com cuidado na espaçosa sala, seguida pelos dois... Bastou pisarem na sala, para que um homem de cabelos negros, jeito de cowboy, usando calça jeans surrada, másculo, e de semblante rude surgisse logo atrás deles, dizendo com voz de trovão:

-FORA DA MINHA PROPRIEDADE!!

Dan e Julie viram pra trás num susto, se desequilibrando e caindo sentados no sofá ao mesmo tempo; enquanto Andy olha para o homem que está a sua frente e usa diplomacia para explicar tudo:
-Vejo que fala português, senhor...?? - começa tímida e fica sem resposta. - Somos apenas turistas, nosso carro quebrou há uns quilômetros atrás e achamos que faria a gentileza de emprestar o telefone para chamar socorro... Por favor?
O homem viril que os fuzilava com o olhar, adentra a sala, pisando como um elefante no chão de madeira e diz ríspido:
-Não tenho telefone, internet, celular, nenhum tipo de comunicação. FORA!
Os três se calam. Wow! Que dureza! Era óbvio que não eram bem vindos ali, mas... O melhor seria voltar? Pra onde??? Depois do tanto que ralaram pra chegar até ali, sem falar nas armadilhas que encararam pelo caminho, e depois o carro deles já era. Pensando nisso, Julie se sente motivada a lutar pelo que mais interessava agora: “a balada”. Ela levanta do sofá disposta a convencer o grosseirão a ajudá-los custe o que custasse. Dan também levanta pra dar apoio ou, ser o primeiro a correr se preciso.
-Na verdade, cowboy... - Jú se move um passo a frente, sem conseguir conter sua euforia.- Vou dizer a verdade, ok? Queremos ficar pra balada! É isso! Dá pra ver que essa festa vai bombar a noite inteira, queremos nos misturar com a galera, sabe? Agitar! Cara, nosso dia foi bizarro, até tentaram nos explodir, acho que merecemos um pouco de diversão pra variar e um lugar quentinho pra dormir... E aí? Vai nos ajudar?
-Julie! O que está fazendo?? - cochicha Andy indo para trás do sofá e mirando a porta aberta, pura estratégia pra fugir na primeira chance; antes que o dono da fazenda resolvesse chamar a polícia por invasão de propriedade privada.
-E tem mais – insiste Jú exibindo um sorriso amigável. - Tamos sem grana, mas meu amigo Dan lava pratos como ninguém, por isso...
Dan arregala os olhos, surpreso por ela “lançá-lo aos tubarões”:

-O-o quê? Que quer dizer com isso? -dá um puxão na mochila dela e Jú olha pra ele enviesado.
-Solta!
Achando o comportamento deles engraçado demais, para surpresa dos três, o homem troca o semblante rude por uma gargalhada alta. Mostrando não ser tão rígido quanto aparentava, avisa:
-Tudo bem! Vou confiar em vocês e deixar que fiquem... Essa noite é aniversário da minha filha – ele vira o pescoço e dá uma cuspida pra fora da casa. Andy e Julie torcem o nariz com nojo da cena. - São meus convidados! Vou acomodá-los no quarto de hóspedes para que possam recarregar as baterias antes da festa. Minha esposa Tinga mostrará o caminho – ele acena para uma mulher jovem, que espiava da cozinha tudo o que acontecia na sala. Ela era baixa, magra, pele morena e usava roupas coloridas, tinha os traços delicados e era de poucas palavras.
Por costume local, Tinga já vem da cozinha trazendo uma bandeja nas mãos, era seu modo de dar boas-vindas, servindo coquetéis refrescantes aos novos convidados. Dan é o primeiro a pegar uma taça e beber um gole, dizendo a Tinga:
-É, isso já começou bem.
Percebendo que o coquetel não estava envenenado, já que Dan não caiu duro no chão, Andy e Julie - desconfiadas como a maioria das mulheres – também se servem da bebida, agradecendo a cortesia.
-A propósito, meu nome é Karl – continua o cowboy indo até os três e os cumprimentando um a um com um aperto de mão forte. - De todos os turistas que já passaram aqui, vocês foram os únicos que não fugiram de medo da minha cara de mau! Hehehe!
-Não assuste os convidados, Karl – pede Tinga enquanto recolhia a bandeja com as taças vazias. -Por aqui, venham comigo!
O homem solta outra gargalhada enquanto eles já se afastavam seguindo Tinga por um longo corredor para conhecerem suas acomodações. Pelo menos agora, tinham um lugar seguro para pernoitar. Isso era bom...
O quarto de hóspedes era espaçoso e decorado em estilo rústico, seus móveis em madeira original, piso de tábuas, cadeiras de palhas, e havia a enorme cabeça de um leão empalhado, pendurada numa das paredes próxima a cama “de casal” do quarto, que faziam qualquer um se sentir como se estivesse num rancho no meio do Texas. A maravilhosa cama era coberta por um fino mosquiteiro branco, que mais parecia um fino véu e ao lado, havia um bonito sofá verde, bem confortável que serviria como cama. Andy e Julie tiram "par ou ímpar" para ver quem ficaria com a cama: Andy fica com o sofá de novo e Julie com a cama só pra ela...

Algum tempo depois, sentada no sofá verde, com o laptop em cima das pernas esticadas sobre a mesa, Andy buscava respostas, tentando decifrar e entender algo que talvez estivesse a milhas luz de sua compreensão humana: o mistério que rondava o nome “The eXplorers”. Digitava algo numa velocidade espetacular, quando Julie saiu do banho. Os cabelos ainda molhados, gotejavam pelo caminho, espalhando um cheiro suave de alecrim pelo ar. Andy olhou de relance para ela numa fração de segundos e depois voltou a atenção para a tela do laptop. Julie usava uma saia com uma fenda na perna e blusa decotada, sua alegria era visível em seus olhos castanhos puxados e no sorriso escancarado no rosto perfeito:
-Nem acredito que meu celular funcionou e que falei com minha irmã Jessie! - joga o celular na cama. - É ótimo saber que ela tá bem e que uma balada nos espera, não é? - Jú pára em frente a penteadeira revirando tudo a procura de um batom. - Essa noite promete, amiga! E então? Aposto que você vai dançar até amanhecer!
Sem ouvir uma palavra do que Julie acabava de dizer, Andy abre um sorriso triunfante e grita:
-DESCOBRI!!!! A terceira lingua é a Pré-Germânica!! Como não pensei nisso antes?
-Puxa! Como não pensou? - Jú faz uma careta debochada, depois passa batom vermelho nos lábios. - Empresta o rímel?
-Pode usar – diz Andy percebendo que ela já estava passando o rímel nos olhos antes mesmo de pedir.
Grudada na tela do laptop, onde aparecia a imagem de um estranho círculo verde, Andy continua animada:
-Estou perto de desvendar o que é o The eXplorers!!... Nada mais importa agora! Vamos saber o que Luke e aqueles homens queriam na clareira.
Ouvindo isso, Julie se aproxima e tira o laptop de sua mão, desligando-o. Andy parecia uma viciada em internet, sequer piscava, só faltava babar diante da tela! Era preciso tomar uma atitude. Resolvida, Julie senta na cama em frente o sofá, segura em seus ombros e a sacode:

-Andy, acorda! Tem uma balada rolando lá fora! Ao menos diz que tá pronta e eu devolvo o computador.
Rápida, Andy abre a mala de mão ao seu lado, tira um casaco jeans em meio segundo, ajeita a saia preta, que caia perfeita e justa em seu corpo elegante de modelo, depois dispara:
-Ok, tô pronta! Tô pronta!
Sem pressa, Jú se abaixa, puxa a mala de mão para perto de si e tira de dentro um par de botas de saltos plataforma, começa a vesti-las, enquanto diz, balançando a cabeça inconformada:
-Tsc, tsc, tsc... Você é um caso perdido!... - abre um sorriso malicioso enquanto muda de assunto. - Antes de devolver o laptop, quero saber uma coisa.

Andy se levanta contrariada. Sabia que ela não ia devolver tão fácil, o melhor era seguir até a penteadeira e cuidar dos cabelos enquanto esperava. Pega um pente rosa e vai ajeitando as pontas com delicadeza. Sem rodeios, Julie vai direto ao assunto:
-O que rola entre você e o Dan?
Andy vira pra trás e ri surpresa. - Como é???
-É só curiosidade! – disfarça Jú ainda vestindo as botas, sem demonstrar muito interesse. - É que não quero ficar no meio de algo mal resolvido... Apesar de achar o Dan um gato!
Percebendo que ela estava a fim do seu melhor amigo, Andy se aproxima, senta no braço do sofá e responde sincera:
-Entre o Dan e eu só há amizade... – revela. - O problema é que ele é um conquistador, vive trocando de namorada. Quer um conselho, amiga? Nem perca seu tempo.

-Bom, já vi que temos algo em comum! Também vivo trocando de namorado! Não é um bom sinal? - brinca Jú com um sorriso descontraído, devolvendo o laptop.
Ao ver que Jú parecia não se importar com o que ela dizia, Andy põe o laptop debaixo do braço e levanta:
-Quem sabe não encontramos dois solteirões melhores do que Luke e o Dan nessa “balada na fazenda”?
-Com certeza você vai encontrar um cara melhor do que o Luke!... Mas, duvido que eu ache alguém tão especial quanto o Dan essa noite – sorri Julie abrindo a porta do quarto.
-Ah! Se aquele cowboy não fosse casado... - fofoca Andy passando para o corredor.
Julie sorri. Bem lembrado!
-Ei, espertinha... - diz Jú enquanto procura a chave na bolsa. - Em uma luta mortal do Cowboy contra os aliens, quem você acha que ganharia?
-Luke.
-Eu sequer tinha incluído esse babaca! - protesta Jú encontrando a chave e trancando a porta. - Vamos!... Só pra saber, eu apostaria no cowboy! Ele deve ter uma boa espingarda...
As duas dão risada, seguindo na direção da festa.

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