Quando Julie deixou a sala de jogos, os tambores soavam furiosos tal como as batidas de seu coração. Sentia-se irada, acuada, estremecida sob impacto do último confronto que teve com Luke Robbins. Em seu conceito, aquele homem parecia uma dessas brilhantes esculturas de gelo, frio, inacessível, escorregadio, e sem sentimentos. Pelo menos, era assim que ela o via. Não confiava nele em hipótese alguma e em nada duvidaria se tivesse sendo seguida até a festa. Num impeto, virou pra trás de repente; procurando possíveis “espiões” entre os convidados para evitar surpresas... Mas, tinha tanta gente, como ter certeza?...
Andando mais rápida que o vento, quando voltou a olhar pra frente BOW!... Deu um trompaço com alguém que vinha do lado oposto!! Julie apenas ouviu o som metálico da bandeja caindo sobre o chão de terra batido depois que o corpo másculo daquele garçom bateu forte de encontro ao seu. Voltando um passo pra trás sem graça, disse:
-Desculpa! Eu tava distraída... - ela observa enquanto ele se abaixava para recolher a bandeja do chão. - Ainda bem que a bandeja tava vazia!
O rapaz se levanta, sacode a bandeja e resmunga qualquer coisa em zulu, num tom baixo e educado. Seus olhares se cruzam por acaso e dividem um silêncio estranho, profundo, um sem saber o que o outro acabava de dizer. Esperto, ele troca as palavras por um sorriso gentil e é logo correspondido por ela. Jú percebe que era aquele garçom que ela já vira antes, e que era mais bonito de perto! Tinha olhos claros e penetrantes. Seu sorriso inspirava confiança, além de ser bem mais alto do que ela que usava botas de salto. Mostrando-se esperta, Julie fala com ele num outro idioma, do contrário ficariam ali a noite toda sem se comunicar: dois bobos. Num tom amigável, ela começa:
“Sorry... Do you speak english?” [Desculpa... Você fala inglês?]
O rapaz estica o braço largando a bandeja sobre uma mesa vaga e responde:
“Yes, I do.” [Sim, eu falo.]
Abrindo outro sorriso, dessa vez de satisfação pelo simples fato de estar falando com aquela beldade, Jú continua:
”I really sorry about this” [Sinto muito pelo que houve.]
De alguma forma, ele percebe que Julie está preocupada com algo, talvez por deixar transparecer tão nítido em seu olhar. Num tom compreensivo, pergunta, encostando em uma árvore:
“Are you ok?” [Você está bem?]
“Yep. But, I think that I need a drink” [Sim. Mas, acho que preciso de uma bebida.]
“No more drinks tonight” [Chega de bebidas essa noite]
Julie sorri pelo modo como ele havia falado, se recusava a servir um simples coquetel para ela??? Tava brincando?? Antes que perguntasse, ele explicou:
“Well, you don't need to drink right now... Let's take a walk first.” [Bem, você não precisa beber agora, vamos dar uma volta primeiro.]
“But... And about your job?” [Mas... E o seu emprego?]
“What job?”[Que emprego??]
“You are the waiter, aren't you? [Você é o garçom, não é?]
Ele ri como quem ouve uma piada e esclarece:
“No. I am just the helper. I am a friend of these family.” [Não, eu só estava ajudando. Sou amigo da família.]
“Ok.”
Já que é assim, eles passam a caminhar juntos pela fazenda. No início, em meio aos muitos convidados, desviando conforme andavam, mas aos poucos as pessoas vão ficando para trás, os espaços menos movimentados. Num tom interessado, Jú pergunta:
“So, what's your name, strange?” [Então, qual é seu nome, estranho?]
“Marco”
“Marco? Nice.” [Marco? Simpático!]
“And yours?” [E o seu?]
“Julie”
Seguindo lado a lado, sem pressa, Julie e Marco passam por uma grande fogueira, onde um macaco (símio) era assado na brasa com pimenta. Julie entendia que esse era mais um dos pratos exóticos da África, mas não teria coragem de comer churrasco de macaco, não mesmo. Por isso, olha de relance para o símio e volta-se para o belo rapaz ao seu lado, continuando:
“Hey. What do you do, Marco?” [O que você faz, Marco?]
“I am a top model.” [Eu sou modelo.]
Apesar dele ser um gato, Julie fica surpresa. Nunca esperava encontrar um modelo em uma fazenda no meio do nada, em uma região tão pacata da África, esperava no mínimo encontrar um "urtigão":
“Top... model? Really? [Modelo? Sério?]
“Actually... International Top Model” [Na verdade, modelo internacional.]
Nisso, Tinga passa por eles sorridente e joga um beijinho de longe para Marco. Julie repara e pergunta confusa:
“Do you know her?” [Você a conhece?]
Consentindo com um sorriso largo nos lábios, ele revela:
“Tinga is my sister” [Tinga é minha irmã.]
“Cool, huh? She is very nice.” [Legal. Ela é muito simpática.]
“Well, It's your turn now, Julie. What do you do?” [Bem, é sua vez agora, Julie. O que você faz?]
“I can say that I work with astronomy and with the stars.” [Posso dizer que trabalho com astronomia e com as estrelas.]
Eles alcançam uma cerca branca da fazenda e param de vez, era o final da linha. Julie encosta as costas na cerca só então percebendo o quanto haviam se distanciado de tudo, ficando bem mais longe dos outros convidados do que desejava. E calculou que desde que estava com Marco, tinha esquecido por completo da rixa que teve com Luke. Ao vê-la olhando para a festa pensativa, Marco pergunta num tom gentil:
“Do you wanna go back?” [Quer voltar?]
E por que faria isso? Passear com Marco tava sendo uma terapia, sem contar que gostava da companhia dele mais do que devia... Olhando para aquele lindo modelo desfilando a sua frente, Julie responde decidida a ficar:
“No way.” [De jeito nenhum]
“May I ask you something?” [Posso perguntar uma coisa?]
“Go ahead!” [Vá em frente]
“...Where is your boyfriend?” [Onde está seu namorado?]
Julie sorri lembrando que quando viu Marco pela primeira vez, estava sentada na mesa com Daniel.
“He is not my boyfriend! I am here with some friends, but we should leave tomorrow early... I am from Brazil” [Ele não é meu namorado! Eu estou aqui com alguns amigos, mas nós devemos partir amanhã cedo... Sou do Brasil]
“Great!... And I'm living in Milão.” [Que ótimo! E eu moro em Milão.]
Ambos dão risada, era engraçado saber que pertenciam a lugares tão distantes e que de alguma forma estavam ali conversando, descobrindo coisas em comum. Através do inglês era como se pudessem estreitar distâncias, tornando-se mais próximos... No entanto, no momento que Julie está distraída, rindo, sente Marco segurar sua mão e a puxar de repente para trás dele, para protegê-la de algo feroz. Foi um gesto rápido e sem aviso!! Um tremendo susto!!!!... Não apenas para Julie, mas pelo visto ele também havia se assustado pra valer! Atrás da cerca branca onde Julie tinha encostado, um búfalo havia surgido do escuro e já se preparava para cravar seus chifres afiados nas costas dela. A verdade é que Marco salvou sua vida a tempo! O susto foi tão grande, que ambos ficaram imóveis até o búfalo bufar cansado e partir, sumindo na noite.
Assim que o chifrudo se vai, Marco dispara uma gracinha, agora mais calmo:
“Aff! It was just a cow with a bad hair” [Aff! Era só uma vaca com um péssimo penteado”]
Ambos racham de rir de novo transformando o susto que levaram em pura descontração. Só então, Julie percebe que ainda está agarrada com Marco, com os braços ao redor do pescoço dele segurando apertado. Então, ela pára de rir, vai soltando as mãos devagar, anda até a frente dele e com os braços ainda sobre seus ombros largos, olhando fixo nos seus olhos, Julie aproxima sua boca da dele trocando um selinho inocente ao invés de dizer a famosa frase: “obrigada por salvar minha vida”, que todo mundo usa nessas horas. Só que não ficam apenas em “um” beijo, pois, quando Julie ia se afastando, Marco segura em sua cintura trazendo-a pra perto de novo e com um sorriso no rosto, rouba um segundo beijo. Esse mais longo do que o primeiro, cheio de intensidade, desejo, fazendo o coração de ambos acelerar em velocidade máxima. Julie sentiu-se fora de órbita nos braços daquele gato, e percebeu que ele também ficava cada vez mais “animado” com ela, assim sendo, foram para o terceiro beijo: esse quase pegando fogo de tão ardente... Julie sentiu as mãos dele deslizarem para dentro do seu casaco, contornando as curvas de seu corpo com malícia, despertando sensações indescritíveis... Ela retribuiu, percorrendo com as mãos o tórax bem definido dele, só indo parar no botão de sua calça...
Por conta desse amasso todo, a noite fria passou a esquentar a cada milésimo de segundo... Julie sentiu a boca quente de Marco deslizando suave por seu pescoço de forma que a arrepiava por inteiro. Num tom entrecortado, faltando o fôlego, Julie pediu:
“Marcooo... Let's go back to the party...” [Marco... Vamos voltar pra festaa...]
“Now?” [Agora?]
Ele se inclina para beijá-la outra vez, mas Julie recua a tempo. E puxando-o pela mão, com um sorriso animado no rosto, propõe:
“Let's go dance!” [Vamos dançar!]
Para Marco, descendente de uma tribo Zulu, um convite para dançar era irrecusável. Ele adorava “requebrar”, a música em sua tribo representava felicidade. Então, segurando firme na mão dela, aceitou sem demora. Guiados pelas chamas das tochas e o brilho reluzente das estrelas, eles retornam a festa e dançam a noite toda! Também aproveitam para namorar, conversar, entre petiscos de gafanhotos e coquetéis exóticos...
...Era bem tarde, super tarde da madrugada, quando Jú entrou no quarto de hóspedes de fininho. Andy dormia em sono profundo, até para dormir ela era delicada, sequer roncava, apenas ressonava baixinho como um bebê. Julie trocou de roupa rapidinho e se enfiou debaixo do edredom macio de plumas de ganso da fazenda. Deitou a cabeça no travesseiro alto e macio, também de plumas, e em menos de um segundo estava dormindo... E o que viria no dia seguinte ela previu antecipado em seus sonhos... UMA CRIATURA NAS SOMBRAS...
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