sábado, 12 de fevereiro de 2011

"Sem saída"

O visual da sala de jogos era modesto e arrojado, com o piso forrado por um fino carpete vermelho. Havia uma mesa de sinuca no centro e ao lado da porta outra mesa, essa redonda, que sustentava um tabuleiro de xadrez feito de pedras de rio e um vaso de murano colorido. No fundo da sala, dois pufes em veludo rosados eram um convite ao descanso. Porém. Julie e Dan pareciam preocupados demais para pensar em sentar nos pufes, ou sequer encostar nas atrativas garrafas de vinho JC Le Roux legítimo Sul africano, expostas no bar de canto da sala... Sentada sobre a mesa de sinuca, girando uma bola de número 3, Julie olhava Daniel que andava de um lado pro outro a sua frente e diz sarcástica:
-Quer parar de andar pra lá e pra cá? Vai fazer um buraco no chão!
-”Ela” já devia estar aqui.
-Dan, tá tudo bem com a Andy – afirma Jú cheia de certeza.
-E como pode saber? - ele pára fitando-a desconfiado.
E a resposta vem “a galope”:
-Porque se tivesse acontecido algo, “eu veria”.
-Conta de novo como foi aquela premonição com Luke?
Vestindo um casaco preto básico sobre a roupa, Julie pula da mesa e aproxima-se dele para contar:

-Já disse... Ele vinha de um canto escuro e olhava pra mim, igual você tá fazendo agora. Só que mais de perto.

-Mais perto??? -ele parece incomodado com a idéia dessa aproximação. - Bom, essa sala tá bem iluminada, então, se continuarmos aqui, estamos salvos.
-Nunca se sabe... - Jú decide provocá-lo. - A qualquer momento um blackout pode acontecer e apagar tudo... Ou as luzes estourarem do nada - ela fala em tom de suspense, mas no final abre um sorriso debochado. -É, pelo visto vou ter de escolher se fico no escuro com Luke ou com você.
-Julie! Como consegue ser sarcástica uma hora dessas? Sabe o que acontece com as pessoas que investigam ETs? Morrem! Já li sobre isso!
-Ah! Falou o especialista! – ri, tirando sarro. - Meu, já escapamos do Luke tantas vezes, não será difícil escapar mais uma – ela volta até a mesa e começa a jogar sinuca. - O plano é esperar a Andy chegar e fugir.
-Fugir não é boa idéia. Tá escuro lá fora e você viu ele vindo do escuro, certo?

Julie caminha até a janela para espiar a festa, enquanto Dan olhava discreto para suas pernas sem que ela percebesse. Não podia negar que aquela garota tinha algo que chamava sua atenção.
-É, mas lá fora tá tão animado!... - diz, com o nariz grudado no vidro da janela, louca para estar dançando entre os convidados naquela linda noite de céu estrelado.
-Até agora não entendi como conseguiu comer aqueles gafanhotos!...
-Insetos são bons – vira para trás com um sorriso arteiro no rosto.
-Também vai provar as aranhas venenosas? - pergunta, tirando o casaco. Ficar trancado naquela sala de jogos com Julie estava dando um calor danado.
-Aranhas caranguejeiras fritas não são venenosas, bobo!
Como quem não quer nada, Dan se aproxima dela, até chegar bem perto e encarando seus olhos castanhos, pede:
-Acho melhor pegar seu número de celular, caso tenhamos que fugir e alguém aqui acabe se perdendo – pega o celular do bolso e abre a agenda eletrônica.
Despachada, Julie puxa o celular da mão dele e fuça tudo, enquanto andava até uma porta dupla de vidro que dava para outra sala com uma bonita piscina coberta de hidromassagem, ao vasculhar a agenda do celular dele, reclama:
-Caramba! Que lista enorme de números de mulher você tem no celular!
-Er... são de ex-namoradas... eu ia apagar... - ele se enrola todo, caminhando até a porta de vidro e ao ver a piscina do outro lado, empurra a porta tentando abrir, mas desiste ao ver que está trancada.
-É esse o tipo de cara que você é? - pergunta, olhando em seus olhos.
-Que tipo?
-Galinha!
Fazendo ar de inocente, Dan responde:
-Sou só um cara procurando a garota certa, mas enquanto não acho, saio com as erradas mesmo... - sorri sem se importar em ser chamado de galinha. - Quem sabe você é a certa?
-Sabe o que acho disso?
-O quê? - ele parece curioso em ouvir a opinião dela.
Julie fala num tom de quem está prestes a aprontar alguma:
-Você é um anjo que caiu do céu...
-Acha mesmo? - pergunta, convencido.
-Claro... Pena que caiu de cara! – ri, jogando o celular pro alto e se divertindo com o segundo fora que acabava de dar nele. Rápido, Dan apanha o celular no ar antes que caísse no chão.
Nisso, ambos ouvem o som de duas batidas na porta. TOC! TOC! Jú interrompe a risada na hora. Será que era Andy??? Dan aposta que sim, conhecia seu modo de bater. Por isso, foi até a porta seguido por Julie e segurou na maçaneta. Mas, antes que girasse, sentiu a mão dela segurar a sua, impedindo-o. Num sussurro, pediu:
-Espera!... Por que não pergunta quem é??
-Sei que é a Andy! – sussurrou de volta.
-Sinto que não deve abrir essa porta... - a voz de Julie soa em tom de advertência.
Dan tira a mão da maçaneta, ao mesmo tempo que Julie. Pensa um segundo, mas não havia o que pensar. Era Andy!!! Ele volta a tocar a maçaneta, vira para Julie, que morde os lábios aflita, como se pressentisse algo assombroso, mesmo acordada... Dan abre a porta e para susto dos dois, a luz do corredor estava apagada e havia apenas um imenso vazio lá fora...
Diante da porta, para alívio deles, aparece Andrea com uma expressão indefinível no rosto de porcelana. Abrindo um sorriso, Jú dá um passo a frente indo abraçar a amiga, mas percebe que ela não está só e recua no mesmo instante... De repente, Luke surge do escuro ao seu lado, parando de frente pra Julie. Um clima de pavor torna o ar pesado, irrespirável...
Andy tenta acalmar os ânimos, dizendo com sua voz doce e segura:
-Tudo bem. Luke só quer conversar, ele veio comigo.
O quê? Vieram juntos??? Essa era uma verdade tão terrível de acreditar tanto para Daniel quanto para Julie. Enquanto ele parecia chocado demais para falar algo a respeito, a reação de Julie é tempestiva com Andy, sem medir as palavras ela vai direto ao ponto:
-Você nos traiu!!!! Como pôde fazer isso? - grita.
-Ouçam! Luke me garantiu que o chefe dele tem uma proposta pra nos fazer e... Bom, só temos que ir até onde ele está, ouvir o que tem a dizer e estamos livres – responde Andy não demonstrando estar muito convencida disso.
-Simples assim? - duvida Julie. - Como se deixou convencer por esse cara?
-Estou cansada de fugir! Vocês não? - a arqueóloga retruca.
Parecia mentira, era o mesmo que o lobo mal ser levado até a casa dos três porquinhos por um dos porquinhos. Indignada com a situação, Julie explode:
-Somos um grupo, Andy! Devia ter nos consultado antes de trazê-lo aqui! Tomou uma decisão sozinha que afeta o grupo! - diz aos gritos.
Andy nada tem a declarar, talvez Julie estivesse certa, mas agora era tarde demais, a besteira já havia sido feita. Então, desvia o olhar para Daniel, seu bom e velho amigo de infância, esperando que ele ficasse do seu lado, que a amparasse como costumava fazer sempre. No entanto, a expressão no rosto dele indicava estar super desapontado... Contendo-se para não devolver o soco que Luke havia lhe dado na clareira, Dan se coloca do lado de Julie incondicionalmente:
-Jú tá certa! Há algo que não contei pra você porque achei estranho... Pesquisei sobre Luke Robbins na internet e sabe o que descobri? NADA! É como se nunca existisse! Como pode confiar em alguém que não existe, Andy?
Olhando para os dois, ela concorda e ressalta:
-Tem razão. Não posso obrigá-los a virem conosco... – dá um passo pra trás em direção ao escuro. - Eu vou sozinha.
Chocado, Dan desliza as mãos da testa ao queixo sem acreditar no que acabava de ouvir. Se a vida é cheia de surpresas, essa era uma delas. O nervoso que sentia naquele momento era tanto, que tinha vontade de socar a porta do guarda-roupa, se tivesse um guarda-roupa ali. Num tom ríspido, repreende:
-Ficou louca?? - Daniel vai até o corredor, segura no braço dela e a trás para perto de si e de Julie. - Não vou deixar que faça isso! - berra.
A discussão fervia a cada segundo, Luke olha sem jeito para um lado e outro do corredor pra ver se havia mais alguém assistindo aquele “barraco”, mas até o momento era o único na platéia. E apenas observa sem se manifestar, sabia que aquela briga era deles e preferia não se envolver até que tudo fosse resolvido.
Num tom mais elevado do que o de Dan, Andy desafia:
-O que vai fazer pra me impedir? Me amarrar?
Soltando o braço dela, ele respira, conta até dez e responde dando-se por vencido:
-Eu vou junto. Apesar de querer matá-la agora... sou seu amigo.
Ele sabia que quando Andy decidia algo, ninguém a fazia mudar de idéia. Um pouco mais calmo, vira pra Julie esperando uma resposta. Será que ela iria acompanhar os dois dessa vez?? Andy e Luke fazem o mesmo, olham para ela sem imaginar o que viria a seguir. Sem pensar muito, Jú anuncia num tom decisivo:
-Estamos juntos nessa, não é? - pausa. - Vou onde forem.
Então, voltando-se para Luke, Jú intimida, apontando o dedo indicador para ele:
-Mas, será do nosso jeito! Não vamos sair no meio da festa... Iremos amanhã!
-E mande aqueles homens que trabalham com você embora, não gosto deles – acrescenta Andy aproveitando a deixa. - Acha que pode fazer isso, Luke?
-Sem problemas – num tom de voz grave, Luke parece aceitar.
Dan encerra com chave de ouro:
-Partiremos cedo, num avião que a Julie irá pilotar.
Dessa vez, Luke balança a cabeça e abre um sorriso de pouco caso, prestes a dizer que não, quando Dan pressiona:
-É pegar ou largar, cara.
Sem escolha, Luke consente e deixa a sala de jogos, desaparecendo sorrateiro como um gatuno no corredor escuro... OS TRÊS FORMAM UM CÍRCULO, COMO SE ATRAVÉS DAQUELE CÍRCULO QUISESSEM PASSAR FORÇA UM PARA O OUTRO, OU ALGUMA ESPÉCIE DE ENERGIA CÓSMICA. Num tom arrependido, olhando para Daniel que agora acariciava seu rosto, Andy se desculpa:

-Foi mal, gente. Eu sei que vacilei, mas... Agora não tem volta.
-E o que faremos? - pergunta Dan irônico. - Nos matamos agora ou deixamos que Luke faça isso amanhã?
É então, que Julie responde de forma descontraída, com seu jeito próprio de ser:
-Vocês não sei, eu vou pra balada.
-Julie! Peraí, Jú! - chama Daniel em vão. Ela já tinha saído da sala de jogos em passos rápidos com suas botinhas...

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