Andy havia entrado no quarto e deixado a porta aberta. Depois de largar o laptop e o celular sobre a cama, junto com a jaqueta jeans que acabava de tirar, ela encontrava-se de pé em frente ao espelho pensando se devia ou não fazer uma mudança radical nos cabelos. Não deu a menor bola quando o celular tocou da primeira vez, nem da segunda, só indo atender ao quinto toque:
-Helloo!
Do outro lado, a voz centrada de Daniel soa desesperada:
-ANDY!!!! ESCUTE COM ATENÇÃO!... “ELES” ESTÃO AQUI!! Não vimos Luke ainda, mas com certeza tá na fazenda! – Dan espera que ela diga algo, mas recebe de volta um silêncio tenso, então, supõe que a coitada perdeu a voz de susto. -Er... Eu e a Jú estamos bem, te esperamos na sala de jogos, fica debaixo da escada. CORRA! E TENTE NÃO SER VISTA!!! Karl nos dará cobertura.
Desligando o celular e guardando na bolsa, Andy sai do quarto as pressas sem vestir o casaco; dirige-se as escadas que conduziam a parte inferior da casa. Mas, ao pisar no segundo degrau, vê Luke subindo. Ele também a vê no mesmo instante. Ambos paralisam, olhando fixo um para o outro, tendo como som de fundo uma música romântica dos anos 80 vinda de fora. Luke estava lindo apesar do arranhão no rosto, marca do impacto da explosão no chalé. Usava um sobretudo preto, e seus olhos azuis brilhavam sob a luz fraca da escada, parecendo contente com aquele reencontro. Pelo menos, até Andy esticar o braço exigindo:
-FIQUE ONDE ESTÁ!
Sem sair do lugar, com um tom de voz tranquilo, ele garante:
-Não vou machucá-la.
Descrente, Andy sorri por um segundo, em seguida fala num tom áspero:
-É fácil dizer isso depois de explodir o chalé onde eu estava com meus amigos.
-Quê? - ele sobe um degrau indignado com a acusação dela. - Não fiz nada!
-Disse pra ficar aí! - alerta Andy num tom intimidor, sentindo o coração disparar dentro do peito, sem saber se por medo ou pela simples presença dele dividindo o mesmo espaço que ela.
Luke consente sem sair do lugar, e explica, embora achasse que ela jamais fosse acreditar nele:
-Os bombeiros suspeitam que o acidente foi causado por um babuíno, usando uma vela e uma cortina de algodão.
O que ele dizia até que fazia sentido, aquele macaco abusado era bem capaz de causar tamanho estrago. Mas, para uma pessoa inteligente como Andy, ainda restavam dúvidas inconclusivas:
-Tá escrito "idiota" na minha testa? O animal podia ter provocado um incêndio acidental, mas nunca uma explosão da tamanha proporção que foi. Ou, vai dizer que ele tinha uma “banana de dinamite” escondida no bolso da calça?
Luke ri notando que ela era uma mulher inteligente, além de ter senso de humor. Contudo, volta a ficar sério ao afirmar:
-Ainda estão estudando as causas, mas qualquer coisa pode ter provocado a explosão. Até mesmo pilhas vencidas... Tinha pilhas no chalé?
-Tinha... - hesita um instante. - Isso não prova nada!
Como desejava acreditar nele, do fundo de sua alma. Desejava acreditar desde o início, embora tudo e todos apontassem contra Luke, era inexplicável a sensação de segurança que ele passava. Ao invés de sentir medo quando estavam perto assim, sentia-se protegida. E se culpava por isso, lembrava das palavras duras de Dan “Luke é o inimigo”. Duvidava daquele homem a sua frente, que naquele momento, tentava convencê-la exatamente do contrário:
-Ao menos, admita que posso ter razão. Pilhas são inflamáveis.
Andy se mantém firme:
-Devo acreditar nisso? Que foi um simples "acidente"?
-Tem minha palavra de honra, Andy. Explosões chamam a atenção e na minha profissão, o que menos quero é chamar atenção dos outros – afirma.
Cruzando os braços, surpresa por ouvir seu nome sair daquela boca sexy, ela replica:
-Vejo que sabe meu nome; Luke. Só resta saber qual de nós teve mais sorte na pesquisa – ela o encara, tentando adivinhar o que ele ia dizer ou fazer em seguida, mas Luke sequer se move, atento a cada um de seus movimentos. -Se algo acontecer com os meus amigos ou...
-Asseguro que nada vai acontecer – diz persuasivo, fitando seus olhos.
-Então, por que você e seus homens nos perseguem? - descruza os braços, tentando entender os motivos. -O que querem de nós???
Luke responde na lata, segurando com uma das mãos no corrimão:
-Propor um acordo... Algo que pode interessar a vocês... Lamento pelo soco que dei no seu amigo, não é o modo como costumo agir – ele sobe mais um degrau, agora já estava quase no meio da escada. - Sei que vai achar estranho o que vou perguntar, mas... Conheço você de algum lugar?
-Talvez – agora é ela quem desce dois degraus para olhá-lo melhor. - Também tenho essa mesma sensação... De que nos conhecemos de algum lugar. A sensação é tão nítida que chega a assustar... De onde você é?
Nisso, a lâmpada da escada pisca, ameaçando queimar... Andy olha pra cima, torcendo pra que a luz não apagasse agora, e Luke aproveita para subir mais um degrau enquanto ela está distraída.
-Califórnia – responde, abrindo um meio sorriso. - Eu sou da Califórnia.
Andy baixa os olhos, encarando-o. Até que ele não parecia tão vilão, quanto Julie sugeriu. Era educado, atencioso, e não tirava os olhos dela, nem por um segundo. Andy sabia que agora seria impossível fugir sem que ele a alcançasse, claro, alguém com o porte físico do Luke era de se supôr que fosse veloz, forte, imbatível, e se a algemasse no corrimão, então não teria a menor chance!... Bom, talvez, se batesse nele de novo pra variar! E dessa vez, não queria bater, e sim conhecê-lo mais a fundo. Num tom neutro, Andy continua:
-Você fala bem meu idioma pra alguém que veio de fora. Vive aqui?
-É. Cresci no Brasil, um tempo no Rio e depois mudei pra São Paulo.
Andy consente. - Vai ver estudamos na mesma escola, ou moramos em bairros próximos...
Balançando a cabeça negando, Luke confessa:
-Chequei informações sobre sua vida pessoal e descobri que não batem com a minha. - pausa. - Alguma vez já viajou pra Califórnia com identidade de outra pessoa?
Andy ri com a pergunta dele. É óbvio que jamais faria algo desse tipo! Afinal, ele era o bad boy ali, não ela:
-Sem chance, Luke. Eu jamais usaria identidade falsa pra sair do país - ela lembra que havia roubado o carro dele e baixa os olhos envergonhada. -Imagino que deva ter encontrado seu jipe... Estávamos em apuros, nossa única saída foi “pegar emprestado” - tira um cartão do bolso e estica o braço devolvendo. - Achei isso no porta-luvas.
-Meu jipe? - sorri, enquanto apanhava o cartão e guardava no bolso. - É alugado pelas pessoas pra quem trabalho, são eles que pagam a conta, não se preocupe.
-Então... Acha que nos conhecemos de algum lugar?
Encostando na parede, ele tenta adivinhar:
-Fez curso fora da cidade?
-Vários... E você?
Pensa um instante... A luz da escada piscando...
-Alguns sem importância, como os de luta aikidô... Há um que não lembro de quase nada, acho que foi porque me afoguei – ri descontraído, deixando-a curiosa. - Mergulho.
-Onde?
-Em Abrolhos, anos atrás...
-É de lá que nos conhecemos! Tem de ser!! - afirma Andy empolgada. - Viajei pra Abrolhos anos atrás e foi o máximo! Fiz curso de mergulho também, aprendi tanta coisa!!... -ela pára de falar e pensa um pouco nisso. -Mas... Não lembro de ter cruzado com você lá... E no entanto, quando nos vimos naquela clareira foi como se fôssemos... próximos.
-Eu sei! Mais do que isso... Íntimos – ele sobe outro degrau, parando de frente pra ela.
Só então, Andy percebe o quanto havia deixado que se aproximasse... A luz do corredor que já piscava, apaga de vez, e eles ficam iluminados apenas pelo brilho fosco do luar que adentrava por uma janela aberta da escada.
-Não devia estar tão perto... - diz baixo, a voz entrecortada.
-Tem razão. Um empurrão seu e eu rolo escada abaixo- brinca Luke no mesmo tom.
Abrindo um sorriso suave, ela promete:
-Vou lembrar disso.
Sem temer o empurrão, ele se aproxima novamente, desta vez seus lábios quase tocam os dela, estavam tão perto que um podia sentir a respiração do outro. E o hálito de Luke tinha aroma de halls de menta e eucalipto, o preferido da Andy. Ele era mais alto que ela, mesmo estando um degrau abaixo. Andy não conseguia tirar os olhos dos dele, o que sentia era forte e incontrolável tal como um terremoto de alta intensidade na escala Richter. Nada fez para evitar quando os lábios de Luke vieram ao encontro dos seus... Se unindo num beijo que começou delicado e foi esquentando a cada segundo... Naquele momento, nada passou por sua mente, é como se tudo estivesse certo, por mais errado que pudesse parecer...
...Até que a luz da escada acende de repente e Andy cai na realidade, interrompendo o beijo e dizendo num sussurro:
-Isso não aconteceu!!!! - ela se afasta, desviando os olhos dos dele.




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