domingo, 6 de fevereiro de 2011

"Ligações"


Andy vai para a frente da casa, onde vê duas crianças africanas brincando a sombra de um gigantesco baobá (uma árvore milenar rara, com mais de quatro metros de altura e uns 2500 anos), e se aproxima delas. Tinha que aproveitar para se despedir do ar puro e imponente da Africa, do som incansável dos animais selvagens e principalmente da simpatia do povo local, a começar pelas crianças, que emitiam uma aura de humildade e alegria. Andy puxa conversa com eles, que para sua surpresa respondem de volta em zulu. Ela se abaixa ficando da mesma altura que os pequenos, conhecia o básico do dialeto deles, o que percebeu ser suficiente para iniciar um papinho rápido, mas descobriu que podia aprender muito mais, quando as crianças a convidaram para um jogo de “passa-anel”, cantando uma canção africana suave como o frescor da manhã, enquanto o sol despontava tímido no céu azul límpido... Mas, as crianças logo interrompem a canção e saem correndo do nada. Andy levanta, tira o óculos escuro encostando as costas no baobá e vê Luke vindo em sua direção. Para sua surpresa, ele não estava vestido de preto, usava uma bermuda comum e uma camiseta verde escuro de tec-tel. Sem contar, que havia feito a barba e tava bem diferente!!! Parando a um passo de distância dela, pergunta sério como sempre:
-Como está?
-Tava melhor com as crianças por perto, mas, vejo que se assustaram com sua “cara de bad boy”– brinca Andy esboçando um sorriso, pensando com seus botões que ele ficava bem mais bonito de barba.
-Andy, ontem na escada... - começou.
-Luke, estou tentando esquecer aquele beijo! – interrompe, desviando os olhos dos dele. - Você não?

-Tô pensando no próximo – confessa, atraindo o olhar de Andy para si mais uma vez.
Sentindo suas bochechas corarem, mas sem dar a menor bola pra isso, Andy abre um sorriso descrente, dizendo com ar de provocação:
-É isso que faz quando não está caçando alienígenas ou perseguindo pessoas inocentes?
Luke abre um sorriso divertido, ele era tão lindo que um simples sorriso seu já era capaz de fazer o coração de Andy bater em ritmo acelerado.
-Quando não estou caçando alienígenas e perseguindo inocentes, sou biólogo - diz.

Andy desvia os olhos por um instante, ela ouve Dan se aproximando com Julie, eles tagarelavam e riam alto, causando muito barulho na fazenda.
-Quer continuar fazendo de conta que nada aconteceu? - Luke pergunta de repente e Andy consente olhando em seus olhos azuis. - Vou facilitar as coisas, ficando bem longe de você.
Magoado, Luke dá um passo pra trás, seguindo em direção a pista de pouso. Andy coloca o óculos escuro. Sentia-se confusa em relação a Luke Robbins. Ainda que tudo estivesse conspirando contra ele, era como se algo lhe dissesse que era bom, tipo uma luzinha no final do "túnel do terror". E, mesmo não lembrando, nem conseguindo explicar, podia jurar que tinham um passado em comum. Mal ele sai, Dan e Julie chegam animados.
-Diga X-Burger!!! - Dan dispara uma foto inesperada da amiga encostada na árvore, usando sua velha e boa canon. - E aí? Pronta pra zarpar?
-Na verdade, com vontade de ficar e conhecer a cidade do Cabo - admite.

Pendurando a câmera no pescoço, Dan sorri sem acreditar nessa.
-Para quem queria ir pra Austrália, mudou de idéia voando!
Apoiando o braço no ombro da amiga, Jú propõe:
-Olha, se Robbins não tiver nos levando pra uma armadilha, vou passar mais uns dias na Africa, com minha irmã Jessie... Por que não me acompanham?
O convite era tentador, mas no momento inoportuno. Dan recusa com polidez balançando a cabeça:
-Seria um prazer enorme, gata. Só que minha família conta comigo na Austrália, não posso furar com eles de novo.
Colocando o óculos escuro e ajeitando o cabelo, Andy também recusa:
-Já tenho compromissos pra esse fim de semana. Inadiáveis!
Os três se entreolham em silêncio. Então, era isso? Depois de todas as aventuras de quase morte que enfrentaram juntos, agora iam se separar?? Eles se põe a andar em direção a pista do teco-teco, sem muitas expectativas. Então, Dan, que caminhava entre as duas, conta:
-Sabe o que é engraçado, Andy? Jú prevê o futuro através de sonhos – volta-se para Andy. - E sabe o que é mais engraçado? Ela não sonhou nada essa noite! Rsss!
Por um acaso, desses que a vida nos prega sem avisar, Andy e Dan desviam do caminho pra se despedir de Karl... E Julie acaba tendo que ir sozinha até o avião... Onde está Luke!... Ela repara, enquanto se aproxima, em passos leves, que Luke estava parado de costas, ao lado do avião, segurando algo coisa na mão... O que pra cabecinha paranóica de Julie é super suspeito!... Ela se aproxima de fininho, até chegar bem perto dele e então pergunta de repente, num tom áspero:
-O que tá escondendo, Robbins?
Sem se assustar com ela, mas virando o corpo para que Julie não visse o que ele tinha nas mãos, Luke responde, ainda de costas.
-N-nada.
A reação dele torna o caso ainda mais suspeito e a curiosidade maior do que um elefante.
-O que é? Agora quero ver! - insiste, tentando olhar por cima dos ombros largos dele, sem chance. - Tá armado? Cara, eu sou nova demais, tenho uma vida toda pela frente e...
Contrariado, Luke vira para trás, e Julie arregala os olhos com o que vê na palma da mão dele... Era uma espécie de macaquinho que parecia brincar com o polegar do Luke. Como um cara tão grosseiro como ele podia segurar um filhote daqueles com tanto cuidado? Estaria disfarçando pra se passar de bonzinho? Bom, só havia uma maneira de descobrir...
-Vai, desembucha! O que ia fazer com o King Kong Júnior?

Com uma expressão séria, Luke estende a mão pra Julie, dizendo:
-É seu.
-Meu?? Tá louco?
Olhando para os olhos surpresos da jovem que estava a sua frente, Luke revela:
-Na África, quando damos nome a uma coisa, atribuímos poder a ela. Deu um nome a ele, por isso é seu.
Julie cruza os braços encarando-o, tentando entender que tipo de jogo ele fazia. Ela era esperta demais e não gostava quando alguém a deixava na sombra da dúvida.
-Está bem. Se é meu, quero que solte - ordena.
Atendendo o pedido dela, Luke se abaixa devagar e solta o macaquinho sapeca, que corre pra fora da cerca da fazenda, subindo na primeira árvore que encontra, com uma rapidez instintiva. Num tom calmo e grave, enquanto Julie acompanhava com os olhos o animal balançar na árvore com o rabo comprido, Luke dá sua deixa:
-Soltar o macaco era o que eu ia fazer, antes de você chegar.
Desviando os olhos do filhote para Luke, Julie abre a boca para xingá-lo mas nem chega a falar nada... Dan e Andy a parecem nesse momento.
-Já vou entrar no teco-teco - avisa Andy passando por baixo da asa e dando a volta pelo outro lado.
-Eu abro... a porta tá meio emperrada – Luke a segue depressa.
Apreensiva, Andy trava diante do avião:
-Quer dizer que a porta pode NÃO ABRIR se tivemos que saltar de pára-quedas?
-Que diferença isso faz? Nem temos pára-quedas! - Luke age com naturalidade, passando por ela e abrindo a porta num tranco brusco: a porta quase despenca na mão dele. Andy entra no aviãozinho de boca aberta e pálida como leite. Da última vez que tentou seguir um caminho por conta própria quase acabou sendo picada por uma cobra venenosa, era melhor arriscar com Julie, Dan e Luke, do que correr perigo sozinha. Nem que fosse a viagem inteira rezando...


Enquanto isso, Dan resolve perguntar a Julie algo que não conseguia engolir desde cedo. Ao vê-la deixar cair o óculos escuro no chão, enquanto prendia o cabelo com a caneta bic, se preparando para subir no que parecia um “avião de brinquedo”, ele se aproxima e sussurra em seu ouvido:
-Essa manhã eu... Vi por acaso, quando entrou na caverna com um cara... Vai me dizer quem era?

Ele vira o rosto para encontrar os olhos de Julie, mas antes que ela respondesse, Dan se curva, pega o óculos do chão, sem conseguir evitar de dar uma olhada rápida para o belo par de pernas da garota, então, entrega o óculos a ela, tornando a encará-la. Julie lembra da conversa que teve com Marco na caverna, “algo temporário”, pensou. Em regras gerais, quando um cara diz a uma garota que vai ligar pra ela, na verdade tá querendo dizer o contrário... Julie olha ao redor, numa última tentativa de reencontro, mas nem o menor sinal dele! Talvez o melhor fosse não levá-lo a sério, apenas trocaram telefones e amassos na festa, envolvimento que ficou pra trás, sem ressentimentos. O que disseram hoje cedo na capela tornava-se claro agora: foi coisa de momento porque um não queria magoar o outro, agora tinha certeza disso, não eram promessas pra valer. Mergulhando dentro dos olhos de Daniel, responde com sinceridade:
-Era alguém que provavelmente não verei mais.
-Isso significa que tenho uma chance? - ele se anima, até abre um sorriso exibindo suas covinhas perfeitas. - Porque, estou na fila.
Dando um passo pra trás e abrindo a porta dianteira da aeronave, Julie responde, devolvendo o sorriso:
-Quem sabe um dia?
O avião demora a funcionar, mas quando acontece, Julie faz uma decolagem de primeira linha. Segundo ela, uma das melhores vistas da África “é a de cima”...
Quando percebeu que sobrevoavam um imenso parque, começou a fazer vôos rasantes, passando a um palmo de distância de grande animais. Viram um casal de hipopótamos tomando banho de lama, elefantes enormes e “aparentemente” dóceis, uma leoa brincando com seus filhotes, um bando de zebras ariscas e, girafas correndo soltas causando um barulho trepidante bem abaixo dos seus pés. Pena não terem visto nenhum rinoceronte, um dos animais com alto risco de extinção, talvez esse fosse o verdadeiro crime do continente africano, espécies sendo vítimas de caçadores inescrupulosos e sem consciência. Logo, Andy respira aliviada por aterrissarem na pista de pouso de um hotel seis estrelas – indicado por Luke. Agora, só restava saber a razão de estarem ali...

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