Regiao de Suazilandia, Africa – Fim de tarde
-Tudo bem, meninas, só mais 1 km e vocês ganham um mouse de chocolate gigante! – brinca Dan comendo balinhas coloridas.
-Mal aguento dar um passo, você quer que eu ande 1 km? Por acaso esse mouse é light? - protesta Andy sorridente, apesar do cansaço que invadia seu corpo esbelto. - E cadê a fazenda que Julie viu? Daqui a pouco chego em sampa e não chego na fazenda! Rsss
Rindo da brincadeira, Jú assume a dianteira na caminhada. Ela gostava de seguir na frente, de ser a primeira a chegar nos lugares, não gostava de ficar por último em nada, era o tipo de pessoa que preferia abrir a festa ao invés de chegar tarde e perder a melhor parte.
-A fazenda tá logo depois daquela pedra – aponta com o pé. - Dá pra ver que estamos perto.
-Você disse isso há três horas atrás – Andy pega uma bala amarela com Dan e atira na boca, sentindo seu sabor doce-azedinho se desmanchando na língua.
Tendo um bom faro como ninguém, Daniel segura no ombro das duas para que parassem. Elas viram pra ele, que alerta baixinho:
-Aquilo não é pedra... É um rinoceronte de verdade!
Jú checa com o binóculo. Sim, ele estava certo e a partir de já todo cuidado era pouco. Num sussurro, Andy pergunta:
-O que esse bicho faz sozinho no meio do mato?
-Fugiu de alguma savana, ou de um caçador... Sei lá! – responde Julie tão baixo quanto uma melodia, ainda vigiando o rinoceronte com o binóculo. - Vamos ter de passar por ele.
Guardando as balas no bolso e deixando cair algumas com a agitação, Dan discorda:
-Passar como??? É arriscado demais, gata!
Voltando-se para ele, a jovem explica:
-Os rinocerontes não enxergam direito. Se andarmos em fila, ele vai pensar que somos um animal grande e terá medo de nos enfrentar.
-E quem garante? - pergunta, enquanto brincava com um galho fino de árvore que pegou do chão.
Devolvendo o binóculo a ele, Jú diz sarcástica:
-A mesma garota que viu um rinoceronte e achou que fosse uma pedra! –sorriu. - Bom, minha irmã é casada com um geólogo e vive na África há uns anos, ela me ensinou o básico sobre vida selvagem.
-Sua irmã é louca como você? - provoca Dan, ganhando na mesma hora um beliscão da Andy no braço.
-Aiii!!!
Com um sorriso aberto no rosto, Jú responde tão sarcástica quanto antes:
–Não, eu sou a anormal da família - risos. - Fala sério, gente! Podemos voltar para lugar nenhum, ou seguir em frente... Quem tá comigo? – Jú estende a mão direita e os dois demoram um segundo, mas acabam juntando as mãos sobre a dela, era como se juntos formassem um trio imbatível. Retornar agora seria um erro, sem falar que estariam arriscando bater de frente com Luke Robbins, melhor seguir adiante, apesar dos obstáculos.
-O que fazemos pra evitar chamar atenção do rino? - Andy quis saber.
Com voz de experiência em safari, Jú declara, antes que soltassem as mãos:
-Duas dicas: não façam barulho e nem sintam medo... Rinocerontes são capazes de sentir o medo das pessoas e atacar – vira. - Vamos!
Dan e Andy prendem a respiração e com ela o medo... Em silêncio, seguem em fila indiana torcendo pra que aquela fera ignorasse a presença deles. O animal, enorme e ranzinza, ameaçou avançar assim que os viu, mas começou a mastigar alguma coisa do chão e por sorte desistiu... Graças a Julie, mais uma vez venciam um novo desafio... Passando pelo rinoceronte, eles chegam a uma velha ponte de cordas sobre as alturas. De onde estavam, viam do outro lado uma linda casa branca: era a sede da fazenda. Só que a ponte se encontrava sobre as árvores mais altas, num “desfiladeiro mortal”. Depois de jogar uma pedrinha pra baixo e vê-la desaparecer na imensidão verde sem produzir som, Andy se afasta da ponte apavorada:
-Sem chance! Nem que a vaca tussa!
Daniel larga a mala de mão no chão e aproxima-se dela:
-Por quê? Nunca teve medo de altura, Andie!
-Talvez eu tenha agora... Depois do que passamos naquele vôo... Quase morremos a noite passada, Dan! Esqueceu?... Sem ofensa, Jú, mas foi como uma montanha russa sem trilhos! – ela vira pra Julie que acabava de sentar na beira da ponte. Seu olhar parecia distante, vago, como quem está em transe ou algo assim, mas Andy não se dá conta disso e continua a tagarelar com seu melhor amigo, que também não percebe. - Só sei, que deve haver um jeito mais fácil de chegar do outro lado.
-Claro que sim, “voando”, igual superman – zomba Dan gesticulando. - Ou, se preferir, posso arranjar um cipó...
Ignorando-o por completo, ela decide buscar outra saída que aumentasse suas chances de vida. Mas, ao ver que Andy ia sair de perto deles, Julie levanta num susto e corre até ela, segurando seu braço sem explicação para impedir que desse um passo sequer pra qualquer direção. Como se não bastasse, a encarou deliberando uma ordem:
-NÃO SE AFASTE!
Surpresa com a reação dela, Andy esboça um sorriso desconcertado e puxa o braço dizendo:
-Calma aí, Jú. Só quero ver se há outro caminho pra fazenda. Acha que vou tropeçar e cair desfiladeiro abaixo?
Julie balança a cabeça em negação, como se pensasse em algo pior do que tropeçar e cair do desfiladeiro, algo mais lento e doloroso. Porém, se limita a fechar a boca sem balbuciar uma palavra. Guardava um segredo precioso dentro de seu coração, no fundo de sua alma atormentada, algo tão obscuro que as vezes ela própria julgava desconhecer as chaves desse mistério. Por isso, nada podia dizer, era cedo para revelar sobre suas habilidades, embora pudesse sentir que seu segredo estava perto de vir a tona... As vezes, é necessário correr riscos para salvar a vida de alguém, ainda que isso signifique expôr aquilo que você mais deseja esconder do resto do mundo... Num tom sinistro, Julie afirma:
-Andy, se não me ouvir... uma cobra pode picá-la.
Por um segundo, a loira fica encarando Julie desconfiada. Mas, isso leva só um segundo. Com o semblante de dúvida, ela vasculha o chão com o olhar, mas logo volta a rir, argumentando:
-Não vejo cobras aqui.
Os lábios de Julie se movem, como quem está prestes a revelar algo importante, mas prefere continuar calada. Nada que dissesse valeria a pena... Apenas continua firme onde está, pronta para impedir caso Andy tentasse se mexer de novo. Enquanto isso, varrendo a área com os olhos atentos, Dan nota quando uma pequena cobra sai de trás das folhagens, bem no caminho onde Andy ia pisar. Em tom de pressa, ele avisa:
-Eu tô vendo! – aponta. - Mas, é só um “bebê”...
-É uma cobra cuspidora! – revela Julie em tom de suspense. - Seu veneno mata em 24 horas e se cuspir o veneno nos olhos de alguém; cega.
Dan e Andy paralisam de pavor. Se Julie não tivesse segurado Andy a tempo, ela seria picada!!! Mas, ao salvá-la, deixou um mistério no ar: Como viu a cobra se estava sentada tão longe??? E ainda mais com o rosto virado pro lado oposto??? Sem dizer nada, Julie se abaixa, pega a mala de mão do chão e segue pela ponte sem olhar para trás, indo ao encontro do próprio destino. Ignorando o balançar, o ranger das cordas bambas e o som de madeira velha rangendo, Dan e Andy fazem o mesmo. Talvez fosse mais seguro encarar o desfiladeiro do que ficar ali com a cobra, o rinoceronte, e outros animais ferozes que pudessem surgir. Ainda mais agora, tão perto do cair da noite no continente africano...
Minutos Depois...
O que eles não sabiam, o que sequer imaginavam... É que Luke e seus homens vinham dentro de seus carros pretos ônix na direção da fazenda, fazendo o mínimo barulho possível, faróis baixos, para não chamar atenção. Já começava a anoitecer quando Luke, “o mal em pessoa”, brecou seu furgão e saltou para apanhar algo espalhado no chão... Eram balinhas coloridas... Mas, ele sabia que significavam bem mais do que isso. Então, esboçou um sorriso de vilão de cinema, voltou pro carro e fez sinal para que seguissem.







Nenhum comentário:
Postar um comentário