terça-feira, 8 de março de 2011

"Algo Suspeito!"

Quando Julie entrou no chalé, Andy encontrava-se de pé sobre a cadeira de balanço tentando se equilibrar como uma surfista em cima de uma prancha de surf em dia de maré alta. Antes de perguntar, ela notou que havia um macaco sentado na cama, de óculos escuro, relógio no pulso e discando um número qualquer no celular, enquanto tudo a sua volta encontrava-se de pernas pro ar. Julie cruza os braços, incrédula:
-O que um babuíno faz aqui dentro?
-Veio visitar você – diz Andy sarcástica. - O QUE ACHA? ESSA COISA INVADIU O QUARTO! ME FEZ DE REFÉM!

-Ah, bom! - rindo. – Então, é por isso que temos de manter as janelas fechadas?... Ao menos não é uma cobra! Ou pior, UM LEÃO... – Jú se aproxima para dizer a novidade. - Ah! Luke tá aqui!
Andy a encara para checar se era verdade. O perigo era óbvio, na dúvida o melhor era correr. Com rapidez, ambas guardam roupas e utensílios básicos em uma mala de mão e pulam pela janela, deixando todo o resto pra trás com o macaco. Um carro freia do lado de fora bem na hora. Era Dan no volante. Julie senta no banco da frente num pulo, Andy passa pra amiga a mala de mão e o laptop, aproveitando pra usar o espelho do carro e passar um protetor labial que acabava de pegar da bolsa. Sua pele clara e lábios delicados exigiam todo o tipo de cuidado a luz do sol.
-Cadê a foto? - pergunta Dan estendendo a mão louco para rever sua "foto premiada".
Julie procura nos bolsos e responde sem jeito:
-Er... Ficou no chalé!
-Quê? - expressa no olhar toda sua decepção.
-Enquanto eu guardava as coisas, deve ter caído!... - ela tenta levantar, mas Dan a impede esticando o braço e prendendo o cinto de segurança nela. - Preciso voltar lá, Dan...
-Não! - lança um olhar intimidor.
-Dan, preciso voltar, é sério!! É nossa única prova!
-Esquece.
-Por quê? - teima.
-Prefiro perder uma foto a perder você – confessa, desviando os olhos pra Andy que agora abria a bolsa e tirava de dentro sua coleção inteira de lipgloss. - Vamos, Andy, isso aqui não é salão de beleza, estamos na África! Os elefantes nem vão ligar se seus lábios tiverem rosa ou laranja!
-É, agiliza isso!!! - chama a amiga enquanto tirava o cinto e levantava para olhar se vinha alguém. - Luke deve estar vindo pra cá com um batalhão!

Quando Julie levanta, Dan vê a foto saindo de trás do bolso da calça dela e puxa, abrindo um sorriso:
-Jú, tava no seu bolso o tempo todo!
Ela volta a sentar e toma a foto da mão dele para conferir:
-É mesmo! Acho que guardei aí na correria e esqueci! - sorri e vira pra Andy. - Amiga, quero que veja uma coisa.
-Nada a ver, é bobagem - diz Dan tentando tirar a foto da mão da Julie que por sua vez, tenta impedir. Nessa brincadeira, esbarram na Andy que borra a maquiagem pintando a ponta do nariz. Para desespero dos dois, ela passa um lenço de papel Soft e começa tudo outra vez.
Julie enlouquece:
-Não acredito nisso! Ela é mais doida que eu! Anda logo, "Barbie"! Ou vão nos pegar!!
Olhando para o longe, além da área da savana, onde viviam os animais selvagens com acesso restrito aos hóspedes, Julie repara que os animais de repente haviam silenciado, como se sentissem que uma ameaça se aproximava... Ela levanta de novo e olha para os lados, mas nem sinal de perigo, embora sua intuição aguçada dissesse que Luke estava cada vez mais perto... Então, Dan vem com uma pergunta inútil:
-Galera! Cadê o resto da bagagem???

-Já era! Somos fugitivos agora, metade das coisas ficaram no chalé - diz Andy aproveitando para ajeitar os cabelos diante do espelho. A cor indicava que estavam sem brilho, isso era preocupante!
-Tá. Damos um jeito de recuperar depois - ele passa a mão na testa suada. - Que sol! Aí, por acaso tem protetor solar nessa sua bolsa?
-Shhh! - Jú pede silêncio. - Por que as girafas estão olhando pra nós?
Bastou ela falar, para Daniel e Andy virarem para as girafas e perceberem que era verdade... Nisso, ambos ouvem uma voz conhecida berrar atrás deles:

-VOCÊS! PARADOS AÍ!
Tempo esgotado! Andrea mergulha dentro do carro e olha pra trás enquanto partiam... Sim, aquela voz grave e sexy era do Luke!!... Ele viu quando aceleraram o carro e na pressa, Julie deixou escapar uma foto que segurava na mão... E o vento a trouxe direto para os pés de Luke. Ele se abaixa com uma expressão vazia no rosto, pega a foto do disco voador ampliada, amassa na palma da mão irado, depois leva o papel a boca e engole sem sal. Tudo acontece rápido demais, ele ainda olhava para o carro deles enquanto fugiam... Luke estava parado a poucos metros do chalé... Talvez por isso não tenha se machucado, quando uma estrondosa explosão levou o chalé das meninas pelos ares num segundo!...
Dan derrapa o carro e gira, levantando uma vasta nuvem de poeira do chão, interrompendo a fuga. Os três olham para as chamas fumegantes ao mesmo tempo e pra Luke, que foi atirado milhas longe com o impacto, mas deu para ver que ele começava a se mexer caído no chão.

-Jesus! - fala Andy boquiaberta, enquanto a fumaça negra subia ao céu.
-ELE EXPLODIU NOSSO CHALÉ! - grita Jú chocada. - Ainda acha que não querem nos matar, Andy? Acha? Puxa! Nos metemos numa encrenca das grandes!
-E bota grande nisso!... - acrescenta Dan de boca aberta. - As coisas que deixaram no chalé foram por água abaixo.
-Por cinza abaixo – corrige Andy olhando preocupada para Luke, que levanta a cabeça e olha na direção dela. E os dois ficam imóveis numa rápida fração de segundos, ignorando a explosão, a fumaça e todo o resto do universo... Como se o tempo tivesse paralisado de repente... Andy só desvia dos olhos azuis dele, quando ouve a voz aflita de Julie ao seu lado, fazendo mil perguntas. Ela havia pulado pro banco de trás para xeretar mais de perto.
-Como vamos escapar disso? Quem acreditará em nós?
Segurando firme no volante, Dan se enche de coragem e pisa fundo, levantando poeira do chão:
-Alguém acabará nos ouvindo. Julie.
Pelo menos, era isso que "ele" queria acreditar e onde depositava sua fé.
...Após deixarem o resort e seguirem horas por uma estrada deserta, o carro que já fazia barulho no motor, pára de funcionar de vez. Uma família de macacos passa na frente deles rebolando, como se zombassem da situação em que se encontravam, tendo como plano de fundo a bela paisagem natural que se assemelhava a uma pintura em tela da África do Sul. Daniel pega sua câmera digital e salta do carro disparando clicks pra todos os lados, sentia preguiça demais para pensar, preferia deixar que Andy cuidasse dessa parte. Ela, por sua vez, percebendo que seu celular tava sem sinal, abre o mapa que ganhou no resort e depois de uma olhada rápida, avisa:

-Analisando o mapa local, posso garantir com certeza que... Estamos perdidos! – ela passa o mapa pra Julie que não parecia nem aí, brincando com um colar de pedrinhas coloridas que trazia no pescoço.
Sem idéias, as duas viram pro Dan e esperam uma solução mágica.
-Qual é? Não é minha culpa se o carro pifou - ele se defende. - Tá, eu devia ter feito uma revisão a noite, mas... Tava ocupado.
-Claro! Super ocupado dando um amasso na dona do carro!– dispara Ju sentindo uma pontinha de ciúmes. Então põe um boné na cabeça: com seu nome bordado nele, e pula pra fora do carro. - Pelo menos não fomos seguidos... ainda
Nessa altura, Andy procura ser prática:
-Ok. Quais são as nossas opções? Andar?? Talvez tenha um posto por perto, ou um Mc Donald's com acesso a internet...
Julie ri. - Sonhadoraa! Somos as únicas pessoas nessa estrada deserta e você quer achar um Mc DONALD's??? Sei, até parece!
Por um lado, Daniel sabia que se desistissem agora, nada ia resolver. Com seu jeito brincalhão, ele trata logo de animar as meninas:
-Ei! Cadê o espírito aventureiro de vocês? Nada melhor que sair da estrada e explorar uma trilha secreta a pé. Podemos ir a lugares onde o carro não chega. Quem topa ir comigo?
Descolada, Julie se pendura nas costas dele, segurando em seu pescoço , e propõe:
-Eu topo, desde que me leve no colo! – brinca. Então, Dan aproveita que ela está em suas costas para girá-la no ar, fazendo-a rir.
-Gente! Isso é sério! - Andy chama a atenção e é ignorada. - Ei! Querem me ouvir?
-Tá bom. - Dan pára e Julie pula pro chão feliz da vida. Estava adorando cada momento que passava com ele, por mais insignificante que fosse, era sem dúvida especial.
Com um sorriso de quem vai aprontar, Julie corre até Andy e cochicha em seu ouvido:
-Esse mal humor é por que sente falta do Luke?
Andy fica corada, sem saber o que dizer, mas nem precisou, porque quando Julie riu, engoliu um mosquito por acaso, afastando-se dos dois tossindo - Oh! Acho que engoli um mosquito!
Enquanto Dan fazia uma careta engraçada, Andy abriu a mala de mão, apanhou uma garrafa d'água mineral e entregou a amiga, que bebeu um gole sentindo lágrimas correrem por seus olhos castanhos. Que eca!
-Tem razão, Dan. Corremos perigo ficando aqui – admite Andy saindo do carro. - Temos que nos mover. Eu trouxe lanche. Que tal comer pelo caminho? Apesar que Julie já comeu alguma coisinha... - brinca com um sorriso matreiro nos lábios, piscando pro amigo.
-Muito engraçadinhos os dois! - resmunga Jú jogando as últimas gotas d' água da garrafa no rosto do rapaz, que ri sem se incomodar. Com o calor que fazia, receber água era um favor!
Assim, nossos heróis deixam o carro e caminham em frente. A sensação era de profundo isolamento, de estarem entregues ao sabor da aventura. Com fome, Andy tira da pequena mala de mão uma pizza tamanho gigante e três latas de refrigerante. Por hora, era tudo o que podiam desejar...
-Putza?- ri Jú sem se conter. - Não tinha uma pizzaria com nome melhor?
-Tinha a “Mais ou menos” - Dan fala com uma azeitona dançando na boca.
-Pizzaria “Mais ou menos”???
-É. Aquela que você come mais e paga menos – explica Andy rindo. - Mas, só a Putza tem bordas recheadas! Huuum! Amo bordas! É uma delícia sem igual!
-Putza! Que pizza! - concorda Julie adorando o recheio. - Onde fica essa Pizzaria???
-Pertinho da casa da Andy – Dan abre a latinha de refri. - Qualquer dia eu te levo lá, Jú.
-Na Pizzaria?
-Não, na casa da Andy. É só usar o disk-putza!
O sol quente agora se revezava com uma brisa fria que batia em seus rostos com força, despenteando os cabelos e formando uma mistura gostosa de temperaturas, algo diferente do comum, assim como toda essa viagem. Sem opções, adentram numa trilha aberta onde a natureza vibrava ao seu redor, em suas múltiplas faces, formas e cores, exalando ar puro que enchia os pulmões. Os sons de aves penetravam em seus ouvidos vindos de todos os pontos, numa sinfonia única, as aves preparavam-se para recolherem-se nos ninhos, junto aos seus filhotes, antes do cair da noite. Abrindo a mochila e entregando seu binóculo a Julie, Dan desafia:
-Você acha que tem sorte?
Aceitando o desafio, ela leva o binóculo aos olhos e sorri vislumbrada. - Uma fazenda!!!! Vejo uma fazenda!!!

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